A CONTA NÃO FECHA – VERA IACONELLI – FOLHA DE SP

Quando o assunto é carreira e filhos, a maternidade não tem paralelo

Na tentativa de escapar da angústia que certos temas promovem, opta-se pela crítica “bipolar”. Contra a idealização da maternidade, circula a ideia da maternidade infernal.

Ora chamando de sagrado, ora apelando para os infernos, esse tipo de polarização é a prova de que não conseguimos pensar o tema em sua complexidade, apenas alternando humores epifânicos com suicidas.

Entrevistada sobre a conciliação entre maternidade e carreira, percebo o desejo no entrevistador de que minhas respostas apontem uma saída satisfatória e justa para a equação maternidade e filhos.

Mas, como dizia a psicanalista Françoise Dolto, justiça não é coisa desse mundo.
Com as novas tecnologias e com os recém-adquiridos direitos femininos, mães teriam a mesma condição de carreira que os pais? A resposta é não.

Com as novas tecnologias e com os recém-adquiridos direitos femininos, mães teriam a mesma condição de carreira que os pais?
Com as novas tecnologias e com os recém-adquiridos direitos femininos, mães teriam a mesma condição de carreira que os pais? – JenkoAtaman – stock.adobe.com

A experiência da mulher na maternidade não tem paralelo a do homem na paternidade. E isso não é bom nem ruim, apenas diferente. 

A maternidade, ao passar pelo corpo da mulher, implica em ônus e bônus diferentes daqueles do homem, que pode ter filhos espalhados pelo mundo sem vir a sabê-lo.

Elas podem, com a ajuda da medicina, postergar a maternidade para quando a carreira estiver mais consolidada. Algumas conseguem, mas supor que isso não afetará a carreira é ingenuidade. 

O filho nascido necessita de presença corporal afetiva e efetiva, levando mais de uma década para que possa ficar sozinho em casa, por exemplo.

Isso significa que, muito além da gestação/amamentação, temos o cuidado ostensivo com as crianças. Aqui poderíamos equalizar as tarefas, mas reza a lenda que só a mãe sabe o que um bebê precisa. Está aí um mito cuja conveniência para os homens salta aos olhos.

Mas ainda que a mulher consiga se dedicar à sua carreira tanto quanto os homens, o fato é que muitos deles têm se ressentindo de só ocupar o lugar de provedor junto aos filhos. 

Os pais começam a reivindicar uma relação mais próxima e íntima com a prole. No lugar de puxar o saco do chefe, o pai avisa que vai sair no horário porque tem que buscar o filho na escola. 

Afinal, a intimidade com os filhos, que passamos a prezar tanto na atualidade, não ocorre no vácuo, ela é presencial.

No geral, as crianças se desenvolvem muito bem, mesmo quando mães/pais se dedicam intensamente ao trabalho, mas isso não significa que a intimidade entre eles e seus filhos não fique ameaçada.

Lembremos do maravilhoso filme “Que Horas Ela Volta” (Anna Muylaert, 2015), no qual a proximidade afetiva se dava entre a babá e o filho da patroa, enquanto sua própria filha, criada pela avó, lhe era uma estranha.

Não há certo ou errado nessas escolhas, mas elas precisam ser assumidas, sob pena de perder mais do que o inevitável.

Os adoecimentos na tentativa de ter uma carreira como se não tivesse filhos, ou filhos, como se não tivesse uma carreira, são a prova do inferno, no qual mulheres, que tentam onipotentemente dar conta dessa condição, vivem. 

A maternidade penaliza o trabalho das mulheres e isso é um fato que só poderá ser compensado com saídas coletivas (licenças maternas/paternas maiores, creches, estabilidade no trabalho, divisão igual de tarefas).

Mas, para isso, é fundamental reconhecermos que entre carreiras e filhos não há escolha sem perdas e as perdas são substancialmente maiores do lado da mulher. Quando elas tentam dar conta do impossível, achando que a conta fechará, acabam por reproduzir seu próprio jugo.

Vera Iaconelli

Diretora do Instituto Gerar, autora de “O Mal-estar na Maternidade” e “Como Criar Filhos no Século XXI”. É doutora em psicologia pela USP

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