A corrida pela vacina – ESPER KALLAS – FOLHA

A discussão para termos imunização eficaz deve ser estratégica para o Brasil

Uma vacina eficaz: essa seria uma das melhores soluções para o controle da pandemia de Covid-19. Como consegui-la é motivo de intenso debate.

Temos algumas premissas, já abordadas nesta coluna, que merecem ser relembradas.

O novo coronavírus não sofre mutação frequente, o que torna mais fácil encontrar um produto que simule artificialmente a infecção. As dificuldades no desenvolvimento de vacinas contra o HIV é, para muitos, motivo para ceticismo. Entretanto, a enorme variabilidade desse vírus promove seu mecanismo de escape, o que não ocorre com o novo coronavírus.

O biólogo Lucio Freitas-Júnior, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, segura uma placa com substâncias testadas contra o novo coronavírus em laboratório da instituição

Até hoje, não há relato de pessoas que, comprovadamente, desenvolveram Covid-19 mais de uma vez. Se há, é um evento raro, provavelmente relacionado a pacientes com doenças ou condições incomuns.

Bastaria ter a doença uma vez para estar protegido. Simular o encontro com o vírus poderia, portanto, promover essa mesma proteção.

A proteção contra infecções subsequentes é conferida pela presença de anticorpos.

Várias organizações, governos (ou coalizão de governos), empresas de biotecnologia e grandes indústrias farmacêuticas estão empenhadas no desenvolvimento de uma vacina.

Muito se tem falado sobre os testes sorológicos, que detectam a presença dos anticorpos que “grudam” no novo coronavírus. As vacinas estimulam a produção desses anticorpos.

Precisamos encontrar uma ou mais vacinas para bloquear a transmissão do vírus. Assim, poderíamos voltar à situação pré-pandemia.

A OMS lançou a operação Warp Speed, que pode ser traduzida como altíssima velocidade, em referência à disposição em acelerar a busca por uma vacina eficaz. Outras organizações internacionais que fomentam a pesquisa em vacinas, como Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI), Program for Appropriate Technology in Health (PATH) e Global Alliance for Vaccines and Immunisation (GAVI), têm posto bastante energia na iniciativa. O governo americano já investiu em vários programas e um consórcio de países prometeu a injeção de US$ 8,8 bilhões para a descoberta de uma vacina

Qual a posição do Brasil nesse cenário?

Pelo menos dez vacinas estão sendo testadas em pessoas, além de outras 123 que estão em desenvolvimento inicial em laboratório, segundo compilação semanal feita pela OMS. A velocidade e os números impressionam e são sem precedentes, considerando uma pandemia cujo vírus foi identificado há menos de seis meses. Para o leitor mais ávido, uma matéria detalhada foi publicada por Gabriela Ingrid, no UOL, e a lista de vacinas está disponível no portal da OMS.

Esses testes, envolvendo a participação de milhares de voluntários, deverão avaliar se a proteção contra a Covid-19 é possível.

Já foi anunciada a primeira participação brasileira em um protocolo internacional, com a vacina produzida pela Universidade de Oxford, cujo desenvolvimento clínico foi assumido pela empresa farmacêutica AstraZeneca. Outras virão.

É importante que o Brasil use essa oportunidade de forma estratégica. Isso inclui a discussão sobre o acesso e a transferência de tecnologia de uma eventual vacina eficaz. Também inclui o fortalecimento dos centros científicos brasileiros, com envolvimento das agências de financiamento e regulação de pesquisa clínica.

A disseminação atual do vírus no Brasil projeta a perspectiva de que uma grande parcela da população ainda esteja suscetível à infecção. Isso faz com que nosso país seja considerado um dos principais locais para os testes com vacinas.

A longo prazo, o investimento em desenvolvimento de vacinas trará frutos para o combate a outras doenças, inclusive contra novos germes ainda desconhecidos.

A descoberta e disponibilização de uma vacina contra a Covid-19 é uma etapa fundamental para o enfrentamento da pandemia no Brasil.

Esper Kallás

Médico infectologista, é professor titular do departamento de moléstias infecciosas e parasitárias da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador na mesma universidade.

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