A Covid-19 avança sem levar em conta a justiça de reivindicações sociais DRAUZIO VARELLA – FOLHA

Por mais justos que sejam os protestos, no entanto, as consequências não se farão esperar

Ilustração de pessoa com cabeça de cachorro e uniforme camuflado com o pé no pescoço de outra pessoa que veste roupa branca e máscara. Em volta da cena, há vários vírus vermelhos
Líbero/Folhapress

Na cena terrível, o ar de superioridade do policial com a mão esquerda no bolso, enquanto esganava o rapaz que tinha dado uma nota falsa de US$ 20 numa loja, fez reviver os horrores dos séculos de escravidão em que foram mantidas as pessoas de pele negra, nas Américas, e o preconceito contra elas que ainda persiste. Não é difícil entender a explosão de revolta que se espalhou pelo país inteiro.

Em diversas cidades, multidões de mulheres e homens brancos aderiram às manifestações, em passeatas diárias que duram uma semana, no momento em que escrevo, sem dar sinais de que terminarão nos próximos dias.3 10

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Manifestantes protestam contra a violência policial em Minneapolis

Não poderia haver hora pior para quebrar o confinamento social nos Estados Unidos, que, depois de ultrapassar a barreira das 100 mil mortes por Covid-19, esperavam a redução do número de casos e a possibilidade de relaxar as medidas de restrição à mobilidade urbana.

Por mais justos que sejam os protestos, no entanto, as consequências não se farão esperar: em duas ou três semanas haverá aumento do número de mortes no país. O coronavírus se aproveita dos agrupamentos e das gotículas liberadas ao falar, sem levar em conta a justiça das reivindicações político-sociais de seres humanos.

Em entrevista à Medpage Today, o professor Amesh Adalja, porta-voz da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas, chama a atenção para o fato de que nas passeatas muitas pessoas não usam máscara, ficam mais próximas, conversam umas com as outras, gritam palavras de ordem e cantam, atividades que aumentam o número de gotículas formadoras de aerossóis infectados e põem em risco as demais.

Está bem documentado o caso de uma cerimônia religiosa, na cidade de Washington, em que 53 dos 61 participantes de um ensaio do coro da igreja foram infectados por um único cantor com sintomas da Covid-19.

O doutor Adalja ressalta o fato de que até a repressão policial colabora para a disseminação do vírus, uma vez que as bombas de gás lacrimogênio e os sprays de pimenta provocam correria, tosse e processos inflamatórios nos olhos e nas mucosas das vias aéreas, que facilitam a transmissão de viroses respiratórias.

Os que entram em contato com os poluentes e a matéria particulada dispersa pelo fogo ateado por manifestantes radicais podem desenvolver uma síndrome pulmonar aguda que também aumenta o risco de infecções virais, como ocorreu por ocasião do ataque às Torres Gêmeas.

No Brasil, as aglomerações em apoio ao presidente, que se repetem todo fim de semana desde o início da epidemia, bem como as passeatas organizadas por manifestantes opositores, no domingo passado, embora reúnam muito menos gente do que os protestos dos americanos, acontecem em péssima hora.

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Em São Paulo, Rio de Janeiro e em outras capitais o número de mortes tem aumentado todos os dias e sobrecarregado o sistema de saúde, que chega ao colapso em várias cidades.

Quando os especialistas e os gestores falam em colapso, muitos não compreendem a extensão de seu significado. Colapso significa a ocupação de todos os leitos hospitalares, das unidades de pronto-atendimento, das equipes de saúde na linha de frente e de todos os recursos disponíveis para o atendimento de novos pacientes, estejam eles infectados pelo coronavírus ou não.

Colapso quer dizer que doentes com infarto, AVC, crises de asma, apendicite, hemorragias perderão a vida sem receber cuidados mínimos, sejam crianças, jovens ou velhos.

Essas razões têm feito os governos agir com extrema cautela ao afrouxar o isolamento. Portugal, exemplo de país que conseguiu conter a epidemia ao adotar medidas precoces de isolamento, que foram respeitadas pela população, já estava na terceira e última fase do desconfinamento quando foi obrigado a recuar por causa do aumento do número de casos na região de Lisboa.

Não há o que contestar, a relação é inversa: diminuem os níveis de isolamento, aumentam as mortes. Criar discursos políticos para ir contra essa realidade é negar a experiência mundial e as mais sólidas evidências científicas. É má intenção ou burrice mesmo.

Drauzio Varella

Médico cancerologista, autor de “Estação Carandiru”.

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