A eleição de um homem normal para governar os Estados Unidos – RICARDO NOBLAT, VEJA.COM

É melhor já ir se acostumando ao modo de ser do próximo presidente dos Estados Unidos. Sai de cena o bravateiro, estridente, carismático, impulsivo, narcisista Donald Trump. Entra o anestesiante, comedido, cauteloso, conciliador e quase sem graça Joe Biden. Depois de quatro trepidantes e explosivos anos, talvez seja justamente disso que o país precisa – calmaria.

Biden é um homem comum, normal. E como tal deverá comportar-se quando finalmente der início ao seu governo. Deu repetidas provas disso ao longo de sua trajetória política suportando todas as adversidades que o destino lhe reservou. Entrará na Casa Branca maduro, quase passando do ponto dada à sua idade avançada. E nada ali lhe será estranho porque foi vice de Barack Obama.

Em seu quarto discurso desde a última terça-feira, dia da eleição, foi o apaziguador de sempre. Pode não ter dito o que muitos dos seus apoiadores gostariam de ouvir – que se considera eleito. Mas repetiu o que eles e os demais americanos deveriam ouvir em momento de alta tensão criado por um presidente entocado na Casa Branca e aparentemente disposto a incendiar o país.

O de ontem à noite, início de madrugada no Brasil, durou cerca de oito minutos. A toada foi a mesma: “Vamos ganhar essa corrida com uma maioria acima de qualquer dúvida. Tivemos 74 milhões de votos. Isso é mais do que qualquer chapa presidencial já teve na história dos Estados Unidos. Estamos derrotando Trump por 4 milhões de votos, uma margem que ainda está crescendo.”

E, em seguida: “Deixem a raiva e a demonização para trás. Temos problemas sérios, não temos mais tempo a perder em guerras ideológicas. Precisamos permanecer calmos. Seu voto será contado, não me importo o quanto tentem interromper isso. Vamos vencer esta corrida. Estamos provando novamente o que provamos por 244 anos neste país: a democracia funciona”.

Nada disso tem a ver com falta de coragem para enfrentar seu belicoso oponente. A campanha de Biden foi vigorosa. Ele não se negou a bater duro e a ser impiedoso com Trump. Tem a ver com a mudança de conjuntura, o controle que exerce sobre ela e a sua nova condição de presidente praticamente eleito. Se Trump não reconhecer que perdeu, Biden proclamará sua vitória.

Todos os presidentes americanos desde 1797 cederam o poder ao vencedor das eleições sem oferecer resistência. Pouco importa que Trump se recuse a admitir a derrota – o calendário será respeitado. No dia 14 de dezembro, o Colégio Eleitoral decidirá quem será o próximo presidente com base no número de votos obtidos pelos candidatos nos 50 Estados e no Distrito de Colúmbia.

No dia 3 de janeiro, o novo Congresso iniciará suas sessões. No dia 6, a Câmara dos Representantes e o Senado irão ratificar a escolha do novo presidente. No dia 20, acontecerá a posse festiva em Washington. Se Trump não quiser comparecer, romperá com um costume mais do que centenário, mas isso é problema dele. Só não poderá ficar na Casa Branca a partir do meio-dia.

A não ser que queira sair dali algemado. Seria uma cena imperdível para os que o detestam, mas causaria horror ao mundo e provocaria graves danos à imagem do país. Trump já causou danos de sobra à imagem dos Estados Unidos. O sistema não permitirá mais um de tamanho porte. Sua arenga nos tribunais não tem futuro. Em breve, a justiça porá um fim nela.

A eleição de um homem normal para governar os Estados Unidos – RICARDO NOBLAT, VEJA.COM
Rolar para o topo