A existência pouco conhecida do Partido Nazista e do fascismo no Brasil – MATHEUS LEITÃO, VEJA.COM

O país já teve legendas de extrema direita que reuniram milhares de militantes. Professora prepara livro sobre como os grupos cresceram por 10 anos no país

Por Matheus Leitão – Atualizado em 24 Jun 2020, 09h27 – Publicado em 24 Jun 2020, 07h19

Defensores do nazismo em Munique, em janeiro de 1923
Desfile nazista em Munique, em 1923 Hulton Archive/Getty Images

O Partido Nazista existiu legalmente no Brasil por 10 anos e espalhou-se por 17 estados. A exigência inicial para entrar na agremiação era a prova de ascendência ariana, o que, em um país tão miscigenado, poderia atrapalhar o crescimento da legenda. Apesar disso, chegou a ser a maior seção fora da Alemanha na década de 1930

A história é pouco conhecida no país. Mesmo havendo alguns estudos importantes sobre o assunto, entre eles a tese “Nazismo tropical? O Partido Nazista no Brasil”, de Ana Maria Dietrich, o conhecimento está restrito ao mundo acadêmico. A historiadora Heloisa Starling, contudo, deve mudar essa realidade. Ela está escrevendo um livro sobre grupos políticos brasileiros de extrema direita para a “Bazar do Tempo”.

Ou seja, a pesquisa avançará para além do Partido Nazista. É que o país já conhece um pouco mais a atuação da Ação Integralista Brasileira, ainda que a dimensão dada pela professora Heloisa Starling no livro impressione. A agremiação, de explícita inspiração fascista, chegou a ter de 100 mil a 200 mil adeptos no país.

No Paraná, onde arregimentou de 35 mil a 40 mil militantes, o Partido Integralista elegeu 24 vereadores e dois prefeitos. A cena mais impressionante dessa legenda de extrema direita, no entanto, foi testemunhada em São Paulo, no longínquo outubro de 1934.

“Quarenta mil integralistas desfilaram organizados em seções, batendo as botas no chão, em cadência militar – camisas verdes, braçadeiras com insígnias em negro, a letra grega sigma, de soma – estandartes desfraldados audaciosamente à luz do dia numa marcação cênica que pretendia demonstrar força”, conta Heloisa Starling em sua pesquisa.

A obra da historiadora chegará às livrarias numa época em que grupos de extrema direita com estética nazista e fascista renascem no Brasil. Os dois modelos são impulsionados pela autoritária abordagem política bolsonarista. Neste ano, o decano Celso de Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal, chegou a comparar a situação política atual do Brasil à da Alemanha nazista.

A partir de 1932, os integralistas brasileiros foram, por exemplo, o primeiro partido político de massas com inserção nacional. Mas ao lado dele, de forma contemporânea, também crescia o Partido Nazista no Brasil, assim mesmo, com esse nome e à luz do dia.

“No Brasil, a tendência mais frequente na história e na ciência política, com exceções, claro, tem sido ver nazismo e fascismo ou como um assunto que está muito longe de nós ou como movimentos residuais circunscritos a uma conjuntura histórica muito específica – a segunda metade dos anos 1930. Talvez seja um equívoco”, afirma Heloisa Starling.

Há 90 anos, os integralistas arrebanharam apoio nos setores das classes médias urbanas, sobretudo entre funcionários públicos, padres, profissionais liberais, poetas, comerciantes, industriais e nas áreas de colonização alemã e italiana.

“Recebiam assessoria e ajuda financeira da Embaixada da Itália, dispunham, entre seus quadros, de um grupo de intelectuais prontos a produzir ideologia fascista em moldura de brasilidade – Plínio Salgado, Miguel Reale, Gustavo Barroso – e contavam com uma militância que se preparava para tornar esse projeto possível”, explica a historiadora.

Menos visível, talvez, conta Heloísa Starling, foi o movimento de aproximação com o fascismo que cresceu no meio dos oficiais das Forças Armadas. “O general Góis Monteiro, por exemplo, a mais competente e poderosa patente do Exército de então, não tinha nenhuma dúvida de que o fascismo italiano apresentava a melhor alternativa para o que poderia ser feito no Brasil como instrumento de regeneração nacional”, diz a historiadora.

A pesquisa mostra que a sede do Partido Nazista no Brasil ficava em São Paulo com o maior número de filiados. As reuniões semanais tinham uma frequência média de 80 pessoas. Em seguida, vinham Santa Catarina, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

No Nordeste, o maior contingente atuava em Pernambuco e na Bahia. No Norte, era concentrado no Pará. No Centro-Oeste, em Mato Grosso. Em 1935, o partido tinha, em todo Brasil, 57 núcleos organizados, 17 grupos locais, 40 pontos de apoio.

A legenda funcionou de 1928 até 1938, quando o ditador Getulio Vargas proibiu a existência de partidos em geral. Mas o grupo extremista continuou a atuar clandestinamente na década de 40 através de organizações de fachada, como a Frente Alemã de Trabalho.

“O Partido Nazista no Brasil fez festas, como no aniversário de Hitler, 1º de maio, lançou um punhado de jornais e algumas revistas para fazer propaganda direta do Reich e difundir idéias antisemitas. Realizou eventos esportivos, criou escolas. Também recolhia informações de natureza econômica e política para o Reich”, informa Heloisa Starling.

Timothy Snyder, no livro “Sobre a tirania; vinte lições do século XX para o presente”, relata  que “quando pessoas armadas que sempre afirmaram ser contra o sistema começam a usar uniformes, e a desfilar com tochas e retratos de um líder, o fim está próximo”. O livro de Heloisa Starling, ainda sem um nome definido, pode ser um bom balizador para entendermos o que de fato acontece no Brasil radicalizado de 2020.

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