A Ford teve bem mais que um motivo para sair do Brasil e nem todos guardam relação direta com o governo Bolsonaro. – THAYS OYAMA, BLOG NO UOL

A Ford teve bem mais que um motivo para sair do Brasil e nem todos guardam relação direta com o governo Bolsonaro.

Como mostrou reportagem do UOL (“Cinco motivos que fizeram a Ford fechar todas as suas fábricas no Brasil”), razões diversas — como a histórica alta carga tributária brasileira e o processo de reestruturação global por que passa a empresa— resultaram na decisão da montadora de deixar o país em que estava instalada havia mais de um século.

O que a Ford não diz, porém, e nem precisava dizer, é que grandes empresas, ao tomar grandes decisões, levam em conta variáveis de longo prazo. Ou seja, analisam a possibilidade de o cenário que hoje se apresenta negativo tornar-se positivo no médio ou longo prazo.

E é nesse ponto que o governo Bolsonaro faz a balança despencar.

Ao voltar aos olhos para o Brasil de hoje, o que os investidores estrangeiros avistam é a incerteza.

Na economia —além da salada de impostos, do emaranhado de leis, puxadinhos de leis, e da prova de saltos que é vencer os obstáculos logísticos que a mais simples das operações impõe —, o que os investidores veem ao analisar a dinâmica do governo é um vaivém de decisões e brigas de grupos que disputam poder (de um lado, os “Chicago oldies”, liberais que brandem a bandeira da responsabilidade fiscal; de outro, desenvolvimentistas que o chefe dos “Chicago oldies” chama em público de sabotadores “fura-tetos”).

Quando olham para o comando do país, a impressão não melhora.

Nessa hora, o que os investidores estrangeiros enxergam é um presidente, na mais benevolente das visões, “exótico”.

Alguém que, entre outras coisas, desconfia ter sido a pandemia do coronavírus “fabricada” na China, resiste em reconhecer um colega eleito nos Estados Unidos, apoia uma manifestação perpetrada por criminosos que, como ele, se negam a admitir que seu candidato perdeu, e tem contatos apenas episódicos com a realidade.

“No primeiro semestre de 2020, apesar da pandemia, verificamos um aumento de ingresso de investimentos, em comparação com o mesmo período do ano passado”, disse Bolsonaro em discurso feito em setembro do ano passado na abertura da Assembleia Geral da ONU. E completou: “Isso comprova a confiança do mundo em nosso governo”.

Alguém enganou o presidente. Ou ele, outra vez, refugiou-se no auto-engano. Como observado à época, os números cantados por Bolsonaro não batiam com os do Banco Central, responsável pelo registro das operações de Investimentos Diretos no País (IDP). O investimento estrangeiro havia decrescido no Brasil, não o contrário.

Em setembro, com a atualização dos dados, a situação piorou ainda um pouco. O BC informou que, nos oito primeiros meses de 2020, o saldo do IDP foi de 27 bilhões de dólares — 41% menor do que o registrado no mesmo período de 2019 e 40% abaixo do aferido no intervalo equivalente em 2018.

A Ford não fechou as portas no Brasil por causa de Bolsonaro e nem é provável que sua saída provoque uma debandada de investidores. Mas quem estava cogitando entrar certamente pensará duas vezes.

Bolsonaro declarou que os números – errados— que citou sobre o investimento estrangeiro no país em setembro “comprovam a confiança do mundo em nosso governo”.

Trazidos os números para a esfera da verdade, também a frase do presidente tem de ser invertida.

Para infortúnio do Brasil e dos brasileiros, são bem poucos os motivos que o mundo tem hoje para confiar no seu governo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

A Ford teve bem mais que um motivo para sair do Brasil e nem todos guardam relação direta com o governo Bolsonaro. – THAYS OYAMA, BLOG NO UOL
Rolar para o topo