A gente não sabemos escolher presidente – MIRIAN GOLDENBERG, FOLHA

Chico Buarque já cantava nos anos 70: “A gente vai levando/A gente vai levando…”.

Nos anos 80 a banda Ultraje a Rigor explodiu com: “A gente não sabemos escolher presidente/A gente não sabemos tomar conta da gente/A gente não sabemos nem escovar os dente/Tem gringo pensando que nóis é indigente/Inútil/A gente somos inútil”.

E também os Titãs: “A gente não quer só comida/A gente quer comida, diversão e arte/A gente não quer só comer/A gente quer comer e quer fazer amor/ A gente não quer só dinheiro/A gente quer dinheiro e felicidade”.

Desde então o “a gente” ocupou o lugar do pronome “nós”.

Recentemente tentei ver uma palestra no YouTube e desisti logo no início. Sem exagero: foram sete “a gente” em trinta segundos: “A gente pesquisou muito porque a gente viu que falta um canal sobre saúde mental. A gente entrevistou dezenas de cientistas para a gente compreender a importância de estudar a mente da gente. A gente viajou por todo o Brasil para descobrir o que a gente precisa aprender”.

Busquei outra palestra e abandonei em seguida: “A gente hoje vai falar de um tema que a gente falou na semana passada: como a gente pode aprender a viver melhor”.

Ligo a TV e é irritante perceber que os jornalistas, comentaristas e especialistas não conseguem falar uma só frase sem “a gente”: “O que a gente vê é que a gente não sabe quando a gente vai voltar a ter uma vida normal”.

“A gente” é abundante até mesmo nas matérias da Folha: em uma só semana foram 221, em um mês 839 e em um ano 11.397 vezes. Em uma única edição contei 37 “a gente”:

“Se tiver um clima no Parlamento, a gente pode levar muita coisa avante”. “A gente sente insegurança”. “Quando a gente tem férias e viaja, a gente faz um monte de planos”. “Uma troca de mensagens imprudente gera um ruído totalmente desnecessário em um momento que a gente está vivendo”.

E não são só as fontes. Alguns colunistas usam e abusam do “a gente”.

Nem vou citar os e-mails que recebo com “agente vai morrer” e, pior ainda, “a gente vamos morrer”.

Já tentou contar quantos “a gente” você escuta e fala todos os dias? Cadê o nós, o eu e você, as pessoas, os brasileiros, o povo?

Mas se Guimarães Rosa no seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras disse: “A gente morre é para provar que viveu”, quem sou eu para defender a beleza do “nós”?

Mirian Goldenberg
Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio, é autora de “A Bela Velhice”.

MEU COMENTÁRIO:

CONCORDO PLENAMENTE, ATÉ POR QUE CONOSCO NINGUÉM PODEMOS…

A gente não sabemos escolher presidente – MIRIAN GOLDENBERG, FOLHA
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