A IMPRENSA E OS MILITARES – FLAVIA LIMA, FOLHA


Jornais custam a esclarecer o grau de alinhamento entre a caserna e o governo

Moderadores dos arroubos do presidente ou fiadores de tudo o que está aí, os militares próximos ao governo ou que dele fazem parte já foram retratados pela imprensa de várias formas.

Tais abordagens, muitas vezes, confundem os leitores que buscam entender melhor a natureza da interação entre as Forças Armadas e o Planalto.

A versão mais repetida pela imprensa talvez tenha sido a dos militares como representantes de uma ala racional do governo (em oposição à “ideológica”), responsáveis por conter os excessos do presidente—como se os militares que compõem o governo atuassem como guardiões da governabilidade e do bom senso.

Em pouco mais de um ano e meio de Jair Bolsonaro na Presidência, foram os militares que mudaram a relação com o Poder Executivo ou foram os veículos de comunicação que demoraram a captar o ânimo dos militares?

Não faz muito tempo, reportagens da Folha e de outros veículos “descobriram” que militares que compõem o governo apoiam o governo. Nem por isso a imprensa mudou a abordagem: o suporte incondicional continuou a ser apresentado como apoio condicionado.

Um leitor questionou esse tipo de matéria: “Desculpe, mas quem não sabe que os generais palacianos endossam as atitudes do presidente?”.

Ávido por respostas, o leitor sugeriu que a Folha mapeasse o alinhamento dos generais da ativa do Exército a Bolsonaro e a relação deste com a cúpula das outras Forças Armadas.

“Dependendo da conclusão, os cidadãos preocupados com a democracia poderão ou não respirar aliviados”, disse.

A imprensa ainda não conseguiu decifrar por completo o grau desse alinhamento, embora esforços tenham sido feitos.

No Executivo, os militares são, hoje, o principal ator político. Sob Bolsonaro, mostra a Folha, são mais de 2.500 militares da ativa no governo—alta de 33% sobre a gestão anterior.

Além disso, 10 dos 23 ministros do governo vieram da caserna (incluindo o ministro interino da Saúde, cuja atuação é caótica), para não falar do presidente e do vice.

De modo geral, o jornalismo parece pouco preparado para essa cobertura e razões históricas podem explicar isso.

No pós-ditadura, a geração que ingressou no jornalismo deixava para trás a censura e tinha como tarefa fundamental conhecer o Congresso e os meandros da governabilidade e do multipartidarismo.

Nos anos 2000, dada a excessiva judicialização da política, a cobertura jornalística passou a exigir que repórteres que cobriam política dominassem também os ritos e a linguagem do Judiciário.

Não faz muito tempo, os jornalistas que mantinham contato com integrantes das Forças Armadas eram um grupo reduzido que cobria a indústria bélica ou o meio ambiente, dada a presença dos militares na Amazônia e seu envolvimento na questão nuclear.

Mesmo nesses casos, os ministros da Defesa atuavam como interlocutores principais.

É com a chegada de Bolsonaro ao poder que os repórteres que fazem a cobertura política precisam se preocupar em ter alguma intimidade com militares, grupo historicamente refratário à comunicação com a sociedade.

As Forças não gostam de dar declarações à imprensa, nem mesmo se mantidas no anonimato (o chamado “off-the-record”), e passaram a ditar o que acham razoável ser discutido, tornando difícil e delicada a cobertura das ações do governo.

Em artigo para o jornal O Estado de S. Paulo, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, brincou de ombudsman ao afirmar que a imprensa precisava rever procedimentos em meio à pandemia e que opiniões contrárias e favoráveis ao governo deveriam ter o mesmo espaço nos jornais, sem o que “teremos descrédito e reação”.

Fora da política por mais de 30 anos, os militares parecem não entender que o trabalho jornalístico é confrontar o poder e que o foco se voltou a eles quando decidiram ocupar um espaço que não é o da instituição.

Haver muitos militares no Planalto e em tantos cargos no Executivo que lá estejam apenas por serem militares não é algo normal em uma democracia madura. Esperar que o grupo reconheça que a política é lugar para contestação, porém, talvez seja demais.

No entanto, os jornais precisam fazer a sua parte, formando repórteres que conheçam a história das Forças Armadas e seus códigos e que enxerguem os militares não como interlocutores desinteressados, mas como uma força política que hoje ocupa o primeiro escalão do governo.

Os jornais têm-se debatido para captar algo novo: o espírito de um governo civil-militar. É preciso investir na cobertura, oferecendo ao leitor quadros os mais próximos possíveis da realidade do retorno dos militares ao poder.

Espero que essa necessidade, sobretudo para a cobertura política, seja breve.

Flavia Lima
Repórter especializada em economia, é formada em ciências sociais pela USP e em direito pelo Mackenzie. É ombudsman da Folha desde maio de 2019.

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