A IMUNIDADE E A DOR LOMBAR CRÔNICA – LUCIANO MAGALHÃES NETO, médico neurologista – FOLHA

A imunidade e a dor lombar crônica
Descoberta do papel do sistema imunológico na perpetuação da dor traz esperança de terapias mais eficientes

Arnaldo, se tivesse um pouco mais de energia, seria um ativista da inatividade, mas preferiu seguir sua carreira burocrática, em vez de enfrentar tal paradoxo. Trabalhando sentado, executava um manifesto silencioso contra o movimento. Armando é diferente, carregou sacas de cimento por mais de uma década. Ano passado mudou de emprego, a fim de ter melhor remuneração. Não fosse uma licença médica, estaria operando uma britadeira.

Arnaldo e Armando, embora díspares, não se assemelham apenas no nome, ambos padecem de uma contínua dor lombar, irradiada em choque para a perna direita.

Antes de continuar com o assunto, faço uma breve ressalva: não escrevo aqui sobre causas graves de dores lombares, eventualmente fatais, cujos sintomas podem parecer com os aqui descritos.

Muitas pessoas, donas de vidas e corpos semelhantes aos de Arnaldo e Armando, não enfrentarão este problema crônico, já que o sedentarismo e a exposição contínua ao estresse mecânico, combinados ou não, não são as únicas causas para a lombalgia comum.

Outros elementos para este curso são impactantes, como perfil psicológico, condições sociais, características biomecânicas e fatores genéticos. Porém, nem sempre conseguiremos entender por que uma pessoa sofre, enquanto outra, com biótipo e ocupação semelhantes, não. Nem importa se tiverem alterações análogas vistas na ressonância de coluna.

Felizmente, novas descobertas trazem uma luz sobre este assunto, e a resposta que se ilumina culpa o sistema imunológico.

Para explicar, retomarei os exemplos de Arnaldo e Armando, mas irei ao princípio, quando o gatilho álgico foi disparado. As rotinas dos dois homens sobrecarregaram e deformaram as estruturas da coluna lombar, por onde passa a raiz do nervo ciático. A dor irradiada para a perna é um sinal clínico de que tal raiz está, ao menos parcialmente, estrangulada.

Este insulto constante modifica profundamente todo o sistema neural encarregado de conduzir as informações de sensibilidade da perna até o cérebro —estas alterações são incrementadas por uma resposta imunológica robusta.

O propósito da ação do sistema imune dentro da raiz danificada é limpar o que, de tão avariado, ficou inútil. Contudo a ação imunológica provoca inflamação, e a atividade inflamatória causa mais dor. Pois excita as estruturas nervosas ainda operacionais a transmitirem mais impulsos álgicos.

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Desta forma, a específica parte cerebral encarregada de receber as informações da raiz ciática é abarrotada por um fluxo intenso de dados álgicos e, muito curiosamente, se inflama também. Células do sistema imunológico são recrutadas para estas áreas encefálicas inflamadas, e outros componentes cerebrais são modificados.

Todas estas ações biológicas são importantes para a manutenção do funcionamento cerebral na medida em que restabelecem o equilíbrio após qualquer distúrbio. Entretanto, sua ativação exagerada é uma ameaça e está envolvida na transformação da dor aguda em dor contínua. E dor crônica pode se manter mesmo após seu gatilho já ter sido curado ou cicatrizado. Para isto, basta as inflamações persistirem, por uma falha de seu contrapeso, os mecanismos corporais anti-inflamatórios.

A dor aguda nos protege, pois nos compele a nos afastar do que é nocivo. Por sua vez, a dor crônica não possui uma clara função benéfica, é essencialmente sofrimento. Com um agravante, é difícil sanar este sintoma. A descoberta do papel do sistema imunológico na perpetuação da dor traz esperanças de terapias mais eficientes, uma carência da medicina atual.

A IMUNIDADE E A DOR LOMBAR CRÔNICA – LUCIANO MAGALHÃES NETO, médico neurologista – FOLHA
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