A indiferença de Bolsonaro com a subversão da ordem pública no Ceará – RICARDO NOBLAT, VEJA.COM

Anarquia de direita pode

Paralisação de policiais militares, que esvaziaram os pneus das viaturas em volta do 18º Batalhão Antônio Bezerra, em Fortaleza (CE), nesta quarta-feira (19). Categoria não aceitou proposta do governador do estado Camilo Santana (PT) José Leomar/Diário do Nordeste/Folhapress

O presidente Jair Bolsonaro ainda não disse uma única palavra de condenação à greve dos policiais militares do Ceará amotinados há 10 dias, mascarados, armados e travestidos de milicianos. Não disse e tudo indica que jamais dirá.

Pouco lhe importa que a Constituição proíba a greve de forças de segurança. E que o movimento ilegal dos policiais cearenses tenha provocado um aumento expressivo no número de roubos, assaltos e homicídios no Estado. Bolsonaro não liga.

De resto, e se ligasse, isso contrariaria seu passado de sindicalista militar radical, tão radical que planejou detonar bombas em quartéis por melhores salários. E o jogaria contra aqueles que ele sempre cultivou como uma importante reserva de votos.

Mandou para o Ceará um contingente modesto da Força Nacional porque o governador Camilo Pena (PT) pediu e porque pegaria mal para Bolsonaro ignorar o pedido. Se dependesse só dele, a intervenção militar teria terminado ontem.Publicidade

Foi o que ele anunciou que aconteceria em seu número semanal das quintas-feiras no Facebook. Como os governadores nordestinos se organizaram para ajudar Pena com o envio de parte dos seus policiais, Bolsonaro prorrogou a intervenção.

O que querem os PMs cearenses rebelados para pôr fim ao seu movimento anárquico? Simples: o atendimento a uma pauta com 18 itens onde se destacam reajuste salarial e garantia de que serão anistiados pelo crime que cometeram e que ainda está em curso.

O governador remeteu à Assembleia Legislativa um projeto de emenda à Constituição do Estado proibindo qualquer tipo de anistia a militares grevistas. Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara, já disse que nenhuma anistia será votada por seus pares.

O Ministério Público Federal irá apurar se os policiais militares do Ceará podem ser enquadrados na Lei de Segurança Nacional. O procurador Rômulo Conrado avalia que o que ali ocorre caracteriza incitação à subversão e à ordem política ou social.Publicidade

Mais de 170 pessoas já foram assassinadas desde o início da sublevação. A média de homicídios, de seis por dia, alcançou o pico de 37 em um dos dias. Viaturas foram sequestradas, outros impedidas de circular e ainda há quartéis ocupados.

Enquanto isso, Bolsonaro distrai a atenção do distinto público dos problemas reais do país estimulando seus devotos a irem às ruas contra o Congresso e a Justiça. Bolsonaro não seria o que é se não procedesse assim. A maioria dos que votaram nele não o conhecia.

Conheça, pois.

A indiferença de Bolsonaro com a subversão da ordem pública no Ceará – RICARDO NOBLAT, VEJA.COM
Rolar para o topo