A INDIGNAÇÃO FLUIDA DO CARIOCA – LEO ANVERSA, O GLOBO, RJ

A indignação fluida do carioca

Mesmo que você só beba água mineral importada, não dá para tomar banho com Evian e escovar os dentes com Voss

Foi há alguns anos que descobriram que os chuveirinhos da praia estavam contaminados com urina. As pessoas estavam tomando banho de xixi. Mas não era um xixi qualquer, vindo de um lugar longínquo e remoto. Era dali mesmo, da praia. Em um raro encontro entre causa e efeito, culpado e vítima, descobriram que os banhistas aproveitavam a chuveirada na areia para aliviar suas necessidades — ao menos a nº1— aproveitando que, mesmo em público, sob o chuveiro ninguém reparava. Acontece que a água vinha de uma bomba que captava a água embaixo do próprio chuveiro. Ou seja, a pessoa tomava banho de urina dos usuários anteriores. Ou, se fosse um banho um pouco mais demorado, da própria.

Na época, isso virou motivo de memes, zoações e piadas. Mas não se levou muito a sério, afinal a gente não liga para essas coisas, aqui é só alegria e diversão, ninguém quer perder tempo esquentando a cabeça. Salvo engano, os chuveiros continuam por lá.

Lembrei essa história há duas semanas, quando começou a dar ruim na água de todo o Rio de Janeiro. A imprensa foi ao Rio Guandu, de onde é captada a água que nos abastece, e descobriram que ele tem vários afluentes infectos, alguns a poucos metros de onde é captada a água que nos abastece, todos sem tratamento do esgoto. São rios de fezes desaguando na estação de tratamento da Cedae.

Resumindo: o sujeito que mora perto do Guandu pega o jornal do dia ou o celular e vai para o banheiro, tranquilo, de boas, conferir as novidades ou interagir no grupo no WhatsApp. Como não há nenhum saneamento, seu cocô desce o cano e vai parar no rio mais próximo. Mais alguns metros, e o cocô, acompanhado de muitos outros, chega ao reservatório da Cedae, pronto para ser distribuído pela cidade. Não há cloro no mundo que transforme tanta bosta em água incolor, inodora e insípida. Quando o sujeito fecha o jornal ou desliga o celular, limpa as partes, dá descarga — se houver — e se prepara para lavar as mãos, é o seu próprio cocô que, liquefeito e com sabor de geosmina, volta pela torneira. A dele e a de todos nós.

Tanto faz se você é nazista, comunista ou isentão, homem ou mulher, criança ou adulto, pobre ou rico — mesmo que você só beba água mineral importada, não dá para tomar banho com Evian, escovar os dentes com Voss ou lavar a louça com San Pellegrino —, a água que sai pela torneira é a mesma. Água sabor geosmina, que está deixando um monte de gente passando mal, mas que o presidente da Cedae — esse poço de credibilidade — garante ser inofensiva.

E o que nós, cariocas, fazemos diante desse descaso absurdo que ameaça a saúde de toda a população? Jogamos coquetéis Molotov na Cedae? Invadimos o Palácio Guanabara para derrubar o governo?

Nada disso.

Criamos memes, zoações e piadas.

Nada contra a alegria, a diversão e o conformismo, afinal eles economizam muito Rivotril, mas será que não chegou a hora de enfiar o dedo na cara do governador e dos políticos responsáveis por tanto descaso, incompetência e má-fé? Se a gente já tomou banho de xixi e está bebendo cocô, não quero imaginar o que vem por aí.

MEU COMENTÁRIO:

O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO?

CONTINUA, MAS INSALUBRE

A INDIGNAÇÃO FLUIDA DO CARIOCA – LEO ANVERSA, O GLOBO, RJ
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