A responsabilidade da volta às aulas é dos pais ou dos governantes? – PAOLA MINOPRIO, FOLHA


Reabertura das escolas esbarra em medidas preventivas e de distanciamento para conter o vírus

Vamos todos cirandar nesta ciranda da nova vida! Divergências de todos os lados. Escolas privadas e públicas, pais e educadores, analistas e cientistas, todos a se perguntar se é o bom momento para o retorno às aulas.

A responsabilidade da decisão é dos pais ou dos governantes? O que priorizar, a escola para pequenos, adolescentes ou jovens adultos? Ai, ai, ai… aí que o bicho pega!

Discussões acaloradas têm ocupado o espírito da população a respeito do isolamento dos últimos meses e da baixa taxa de infecções de Sars-CoV-2 em crianças, ou sobre a evolução branda da Covid-19 em jovens infectados. Apesar disto, ainda estamos distantes de ter uma visão clara de como a reabertura de creches, colégios e faculdades deverá acontecer de maneira segura.

Dispositivos para a lavagem das mãos, regras quanto a tosse e espirros, medidas profiláticas controladas serão essenciais para uma reabertura confiável, tanto quanto o distanciamento, a limpeza das instalações e as práticas de preparação de alimentos. A expectativa de retorno à escola, colégios e universidades traz alívio, mas também preocupação a muitos pais por causa do medo de expor seus filhos e suas famílias ao contágio pelo coronavírus.

Isto é apavorador, pois enquanto crianças menores de 12 anos parecem ser pouco contagiosas, as maiores, quando portadoras assintomáticas, transmitem melhor o vírus. Ainda assim, um estudo da Universidade de Granada, na Espanha, mostrou que se duas crianças vindas de famílias com dois adultos e 1,5 filho, fossem para a escola sem maiores medidas de proteção e frequentassem uma sala com 1 professor e 20 coleguinhas, 10 deles com irmãos em casa e os outros 10 filhos únicos, elas estabeleceriam 74 contatos no final do dia, 808 contatos no 2° dia e 15 mil contatos após o 3° dia de aulas


A organização na volta às aulas é logicamente fundamental. A análise de risco de transmissibilidade e do número adequado para cada turma, a presença de ar condicionado ou ventilação nas salas e nos tipos de veículo de transporte, são parâmetros indispensáveis que devem proceder à decisão e a data de retorno.

Mas será que cortar as classes em dois ou três para favorecer o distanciamento e a previsão de intervalos em alternância serão eficazes? Estes caminhos foram testados em países europeus como a Espanha, a Dinamarca, Israel e Áustria, mas alguns tiveram sucesso, enquanto outros levaram escolas a fechar novamente.

Em São Paulo, a volta foi prevista para setembro, será escalonada e só 35% dos alunos de cada colégio poderão frequentar aulas a cada dia. As medidas pretendem ser válidas da educação infantil a universidades, para redes municipais e estadual, privadas ou públicas.

O programa será ministrado parcialmente em presencial e online, constrangendo os menos favorecidos que não têm computador.

No entanto, o uso de máscaras mereceu consenso, pois mostrou que pode reduzir a menos de 1,5% a possibilidade de transmissão do coronavírus. Assim é o caso da China, da Coreia do Sul e do Vietnã.

A situação atual continua difícil no mundo todo e pouco se pode aproveitar de países que se encontram em estágios diferentes de flexibilização, ou ainda em período de férias.

Mas, de uma maneira geral, observa-se que estas questões de saúde pública têm preocupado a população e as células de crise sanitária instituídas pelos governos que ponderam os riscos e os benefícios da volta às aulas, o impacto sobre a continuidade das matérias mas, acima de tudo, o bem-estar das crianças e dos jovens adultos.

Já veremos! Se o número de casos ou a falta de responsabilidade do povo continuarem a aumentar, com certeza a estratégia do retorno às aulas falhará e vamos de novo cirandar, dar meia-volta e volta e meia vamos dar.​

Paola Minoprio
Diretora de pesquisa do Instituto Pasteur de Paris, coordenadora da Plataforma Cientifica Pasteur – USP, conselheira de comércio exterior da França.​

A responsabilidade da volta às aulas é dos pais ou dos governantes? – PAOLA MINOPRIO, FOLHA
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