A rica história do Canal de Suez; leia a análise – ESTADÃO


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Ideia do moderno Canal de Suez ganhou força após a invasão quixotesca de Napoleão Bonaparte ao Egito em 1798

Ishaan Tharoor / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 05h00

Muito antes da construção do canal moderno no século 19, a área onde agora funciona estava pronta para a travessia transcontinental. Fernand Braudel, o grande historiador francês do Mediterrâneo, observou como, há milhares de anos, “o istmo de baixa altitude do Suez (…) várias vezes foi inundado pelo mar, transformando a África em uma ilha”.

Na Antiguidade, os soberanos viam a utilidade de construir uma ligação marítima para que suas trirremes a remos se movessem pelo Mediterrâneo, ou pelo menos do rio Nilo para o mar Vermelho. O primeiro foi possivelmente o faraó egípcio Necau II – identificado como Neco pelo historiador grego Heródoto – que iniciou um grande projeto de construção de canais por volta do final do século 7 a.C.

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Vista aérea do Canal de Suez e do navio Ever Given  Foto: Maxar Technologies/Handout via REUTERS

A ideia do moderno Canal de Suez ganhou força após a invasão quixotesca de Napoleão Bonaparte ao Egito em 1798. Sonhando em construir uma passagem rápida para a Índia, que já era a joia de um Império Britânico em expansão, o general francês enviou uma equipe de topógrafos para traçar o curso de um canal do mar Mediterrâneo ao mar Vermelho.

Décadas depois, o empreendedor e ex-diplomata francês Ferdinand de Lesseps garantiu financiamento do governo francês e a permissão do vice-reinado otomano no Egito para que sua Companhia do Canal de Suez começasse a construção do que se tornaria o Canal de Suez em 1859.

Os primeiros anos envolveram um enorme esforço humano, enquanto os trabalhadores removiam e dragavam muitos milhões de metros cúbicos de terra. Segundo um relato, mais de um milhão de camponeses egípcios foram forçados a participar do projeto e dezenas de milhares morreram, contraindo doenças como cólera em circunstâncias análogas ao trabalho escravo. As condições melhoraram depois que as autoridades locais intervieram e equipamento industrial pesado passou a ser usado.

Em 1869, o canal foi inaugurado em uma grande cerimônia organizada pelo quediva otomano Ismail Paxá. Seis anos depois, com o Egito otomano afundado em dívidas, Ismail venderia suas ações na Companhia do Canal de Suez ao governo britânico, que havia passado de cético em relação ao projeto a um de seus maiores beneficiários.

A abertura do canal levou ao apogeu dos impérios europeus na Ásia e na África: navios de guerra a vapor e cargueiros passaram a poder evitar a longa jornada ao redor do Cabo da Boa Esperança. Os campos de refinamento de petróleo ao longo do Golfo Pérsico no início do século 20 apenas ressaltaram a vitalidade estratégica do canal para as potências europeias.

É justo, então, que o dramático fechamento do canal em 1956 seja visto agora como um dos últimos suspiros da época do colonialismo. O carismático presidente nacionalista Gamal Abdel Nasser optou por nacionalizar as propriedades da Companhia do Canal de Suez e as tropas egípcias tomaram suas instalações. Isso levou a uma invasão por uma expedição conjunta de forças britânicas, francesas e israelenses em uma tentativa de derrubar Nasser. 

Mas acabou se tornando um fracasso humilhante, com os Estados Unidos se recusando a dar apoio e a opinião pública global se voltando decisivamente contra os britânicos e seus aliados.

Para outros, como o magnata da navegação grego Aristóteles Onassis – que por acaso tinha petroleiros vazios apodrecendo nos portos sauditas no momento em que a crise surgiu, e então cobrou taxas enormes enquanto eles circunnavegavam a África com petróleo para o Ocidente – isso consolidou uma fortuna. O canal foi reaberto em 1957, mas seria fechado mais uma vez uma década depois da Guerra Árabe-Israelense. Esse fechamento durou oito anos. Em 1975, o presidente egípcio Anwar Sadat anunciou a retomada das atividades de navegação no canal soltando pombos no ar.  TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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