A teoria do grande homem e os anões de Bolsonaro – JORGE PONTES, REVISTA VEJA

Caso dos dossiês sobre antifascistas mostra como o Brasil de hoje carece de grandes homens, decisivos e singulares

Por Da Redação – Atualizado em 21 ago 2020, 18h06 – Publicado em 21 ago 2020, 18h05

Dossiês foram elaborados no Ministério da Justiça e Segurança Pública Carolina Antunes/PR

Nessa semana, durante uma viagem de Bolsonaro a Sergipe, aconteceu um passagem desconcertante: o presidente, no meio de uma multidão de militantes que o recepcionavam, levantou um anão, aparentemente pensando tratar-se de uma criança.

Thomas Carlyle, filósofo e ensaísta escocês do século XIX, que aperfeiçoou a teoria do grande homem, dizia que a história do mundo se resumiria basicamente à soma das biografias dos grandes homens.

Para Carlyle, a história poderia ser explicada tão somente pelo impacto das ações dos vultos, dos grandes homens (ou heróis), seres notadamente decisivos e singulares que, devido às suas qualidades, como capacidade intelectual superior, bravura, determinação e inspiração, promoveram efeitos decisivos, transformando o mundo e impulsionando a humanidade.

A teoria do grande homem, como entendida em relação ao desenvolvimento da história, poderia ser igualmente aplicada nas famílias, nas equipes de futebol, nas salas de aula, nas universidades, nas empresas, nas instituições públicas, nas cidades e até nos países.

Quem decide, quem é determinante, quem excede e faz de fato a diferença, para os grandes saltos e as grandes conquistas, é invariavelmente um número reduzido de pessoas, com inteligência, motivação e capacidade de trabalho muito acima da média.

O resto, a grande maioria, é uma massa quase bovina que segue o fluxo e vai para onde o mainstream a levar.

Triste é notar, como o Brasil de hoje carece desses vultos aos quais Carlyle se referia. E percebemos que quando aparece alguém, um indivíduo que poderia de fato exceder, com retrospectiva e força para operar mudanças, ele é expurgado, forçado a desembarcar, muitas vezes para salvaguardar a sua própria biografia.

E três voltas completas no Maracanã é o tamanho da fila de candidatos que, no dia seguinte, se apresentam, subservientes, para substitui-lo, dispostos a fazer o trabalho sujo, justamente aquele serviço que o antecessor – por conta de suas virtudes – não teve estômago para realizar.

E exatamente à luz da teoria do grande homem – à moda brasileira – refletimos acerca do recente escândalo dos dossiês sobre antifascistas, elaborado no Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Pois bem, o Supremo Tribunal Federal, analisando uma ação do partido Rede Sustentabilidade, determinou (em votação com score de 9 x 1) a imediata suspensão da produção dos tais dossiês sobre vida, escolhas pessoais e posicionamentos políticos de brasileiros identificados como integrantes de movimentos antifascistas, em oposição ao governo Bolsonaro.

Causou também espécie o fato da Procuradoria Geral da República – órgão do estado brasileiro – ter solicitado a rejeição da ação em tela, movida pelo Rede Sustentabilidade.

O que podemos concluir em casos como esse – dos dossiês sobre antifascistas – é que está grande a fila de anões aguardando a vez de serem levantados pelo presidente da República.

A teoria do grande homem e os anões de Bolsonaro – JORGE PONTES, REVISTA VEJA
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