A Vale e o crime de Brumadinho – CRISTINA SERRA, FOLHA

A investigação mostra que a empresa sabia dos problemas e não tomou providências

No recém-lançado livro “O Mapa da Mina“, o jornalista André Guilherme Vieira esquadrinha o cipoal da disputa judicial entre a mineradora Vale e o grupo BSGR, do israelense Benjamim Steinmetz, que já foi considerado o maior comerciante de diamantes do planeta.

No centro do litígio, as reservas de minério de ferro nas montanhas de Simandou, na República da Guiné, ex-colônia francesa, mais conhecida pela turbulência política e pela pobreza endêmica da população. Por meio de centenas de documentos do processo, na Corte de Arbitragem Internacional de Londres, o autor consegue deslindar a geopolítica da mineração mundial e como as grandes corporações operam para garantir a primazia nesse mercado.

Basicamente, é um vale-tudo, com golpes abaixo da cintura, como suborno, espionagem e destruição de reputações. Na gestão de Roger Agnelli (morto num desastre de avião em março de 2016), a Vale embarcou numa sociedade de alto risco com o grupo israelense para explorar Simandou, ignorando alertas contrários de alguns dos seus executivos. Deu tudo errado e chegou-se à disputa atual, num enredo mirabolante, que o autor narra como uma história de suspense.

A mesma empresa que enterrou bilhões de dólares num projeto fadado ao fracasso na África é a responsável pela maior tragédia humana associada à mineração no Brasil. Em 25 de janeiro de 2019, a barragem da mineradora em Brumadinho (MG) se rompeu. A lama de rejeitos matou 270 pessoas e dois nascituros e poluiu o rio Paraopeba.

O rompimento ocorreu na hora do almoço e soterrou os trabalhadores que lotavam o refeitório, localizado abaixo da barragem, assim como o escritório e a sirene do complexo, o que dá bem a medida do descaso criminoso com a vida humana. A investigação do Ministério Público de Minas Gerais mostra que a empresa sabia dos problemas da estrutura e não tomou providências, assumindo, portanto, o risco de um desastre. Haverá justiça para Brumadinho?

As 11 vítimas do rompimento de barragem da Vale, em Brumadinho (MG), ainda não localizadas
ANGELITA CRISTIANE FREITAS DE ASSIS
CRISTIANE ANTUNES CAMPOS, 34, trabalhava na Vale há 10 anos, onde começou dirigindo caminhão. Depois fez curso técnico em mineração e se supervisora de mina. Deixou dois filhos pequenos, uma irmã e a mãe.
RENATO EUSTAQUIO DE SOUSA, 31, era funcionário da Vale, na parte de mecânica. Deixou duas filhas, a companheira, os pais e dois irmãos mais novos.
LECILDA DE OLIVEIRA, 49, trabalhava na Vale há cerca de 30 anos. Tinha muitos conhecidos e amigos na empresa, era madrinha de casamento de Juliana. Deixou dois filhos, duas irmãs e a mãe.
UBERLÂNDIO ANTONIO DA SILVA, prestava serviço em uma terceirizada
MARIA DE LURDES DA COSTA BUENO, 59, administradora de imóveis, estava na Pousada Nova Estância com o marido Adriano, os filhos dele, Camila e Luiz, e a noiva de Luiz, Fernanda, que estava grávida de cinco meses de Lorenzo. Todos morreram no desastre. Deixou dois filhos.
LUIS FELIPE ALVES, 30, engenheiro de segurança do trabalho. Trabalhava há três meses na Vale e estava há 15 dias na mina Córrego do Feijão, local do rompimento. Deixou os pais e dois irmãos.
NATHALIA DE OLIVEIRA PORTO ARAUJO, 25, era estagiária na Vale, tinha feito curso técnico em mineração e sonhava em trabalhar na empresa. Deixou o marido e dois filhos pequenos.
JULIANA CREIZIMAR DE RESENDE SILVA, 33, trabalhava na Vale há 10 anos. O marido dela, Dennis Augusto da Silva, também morreu no desastre. Os dois deixaram dois bebês de 10 meses.
TIAGO TADEU MENDES DA SILVA, 34, trabalhava na Vale há mais de 10 anos. Tinha acabado de se concluir o curso de Engenharia Mecânica, com colação de grau marcada para março de 2019. Deixou a mulher e dois filhos.
OLIMPIO GOMES PINTO

As 11 vítimas do rompimento de barragem da Vale, em Brumadinho (MG), ainda não localizadas Comissão dos não encontrados/AvabrumLeia Mais

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