Abertura da CPI do Genocídio leva Bolsonaro a atirar para todo lado – RICARDO KOTSCHO, UOL

Bem que o melífluo presidente do senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), aliado de primeira hora de Bolsonaro, tentou impedir até onde pôde a instalação da CPI da Covid, mais apropriadamente sendo chamada de CPI do Genocídio, que já matou mais de 340 mil brasileiros.

Embora tivesse número maior de assinaturas do que o exigido pelo regimento, Pacheco sentou em cima do pedido de parlamentares da oposição por 63 dias.

Ao ser informado de que o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, determinou a imediata abertura do processo sobre a atuação ou omissão do governo federal na pandemia, o presidente do Senado criticou a decisão, mas disse que vai cumpri-la, como se fosse possível desobedecer à ordem judicial.

Bolsonaro, por sua vez, entrou em pânico, e ligou a metralhadora giratória. Pediu o impeachment de ministros do Supremo e mirou em Barroso:

“Falta-lhe coragem moral e sobra-lhe imprópria interferência política”, disparou contra o ministro e, em seguida, atacou os governadores, sem citar nomes:

“A CPI que Barroso ordenou instaurar, de forma monocrática, é para apurar apenas ações do governo federal. Não poderá investigar nenhum governador, que porventura tenha desviado recursos federais no combate à pandemia”.

Se tem conhecimento desses desvios, o presidente da República deveria denunciá-los à sua Polícia Federal e dar nomes aos bois, em vez de levantar suspeitas sobre todos os governadores, como costuma fazer.

De que Bolsonaro tem tanto medo, afinal, a ponto de entrar em pânico?

De uma convocação do general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, ou dele mesmo para explicar por que o Brasil não comprou vacinas a tempo de imunizar a população e negou a gravidade da pandemia até onde pode, ao boicotar as medidas de isolamento social que levaram os hospitais e os cemitérios ao colapso?

A explicação pode estar nas declarações do próprio Rodrigo Pacheco contra a decisão de Barroso: “Esta CPI pode coroar o insucesso do combate à pandemia”.

Se é assim, trata-se de mais um motivo para instalar a CPI do Genocídio e investigar o que levou a esse insucesso e identificar os responsáveis.

Bolsonaro tem medo de ver a verdadeira cara do seu governo e tem pavor de investigações. Por isso, aparelhou todos os órgãos de controle, da PGR à PF, passando pela Receita Federal e AGU, Abin e outros.

Sobrou até para o IBGE. Inconformado com o aumento da taxa de desemprego, que atingiu 14,3% da população ativa, a maior desde 2012, quer agora mudar a metodologia de pesquisa do venerando instituto.

Foi pelo mesmo motivo que ele cortou quase a zero as verbas do IBGE destinadas no Orçamento ao Censo de 2020, que tinha sido adiado para este ano.

Com o caos na economia, a pesquisa poderia mostrar as consequências dramáticas dos seus dois anos de governo nas condições de vida da população e compará-las com o Censo anterior de 2010, quando o país crescia a 7% ao ano.

De pesquisa em pesquisa, ainda antes da CPI do Genocídio, a popularidade do presidente vem derretendo.

No levantamento do Instituto Ideia, em parceria com a Exame, a revista dos empresários, a rejeição a Bolsonaro disparou para 51,5% de ruim/péssimo, a maior desde janeiro de 2019, enquanto a aprovação caiu para 24% de ótimo/bom.

Em guerra aberta com os ministros do Supremo, que apoiaram a decisão de Barroso, e os governadores, que ele não pode demitir, como fez com os comandantes militares, Bolsonaro vive o pior momento do seu governo, sem que a pandemia dê sinais de ser controlada, com mais de 4 mil óbitos por dia.

Ao contrário, a cada dia que passa, a situação nos hospitais só piora, com o aumento do número de doentes graves e a falta de insumos básicos, UTIs, equipamentos, pessoal e remédios.

Trocar ministros não resolve nosso problema.

O maior problema está no Palácio do Planalto.

Vida que segue.

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