Acertando a hora no relógio errado – LEO AVERSA, O GLOBO

Descartados os papéis de terrorista, hipster e rebelde, resolvi manter o digital barato no pulso, tentando posar de franciscano despojado

O relógio estava exposto no fundo da banca de jornais, pendurado entre um pacote de figurinhas e uma capinha de Blackberry. Quanto é, perguntei. Trinta e cinco, respondeu o jornaleiro com leve desdém. Ao notar que o tal relógio era igual ao meu, o leve desdém se transformou em algo entre a pena e o desprezo. Fiquei constrangido na hora.

Relógios eram coisa séria, passados de pai para filho em cerimônia com pompa e circunstância. Deviam ser suíços, de preferência, ou japoneses, ao menos. Não se admitia um adulto sério sem ponteiros no pulso. Quando apareceram os digitais, a tradição desandou: qualquer adolescente exibia um Sanyo ou Texas Instruments, daqueles que você precisava apertar um botão para ver a hora. Depois vieram os de calculadora, do Mickey, os swatch, os de várias pulseiras, os super-resistentes para mergulhar até o fundo do mar. Passei por alguns destes, até que, chegando nos quarenta — anos, não relógios — resolvi que era tempo de algo melhor. A tal crise de meia-idade, em versão de pulso. Comprei um sofisticado modelo retrô, numa loja tão moderna quanto cara. O vendedor, acostumado a uma clientela jovem, rica e descolada me encarou com aquele olhar entre a pena e o desprezo — igual ao do jornaleiro — e logo fez um desconto, que desconfio ter sido para se livrar logo de mim e assim não espantar os outros clientes.

Aprendi então que depois de uma certa idade você não pode mais usar objetos retrô ou vintage, fica parecendo que você apenas está reaproveitando algo que já tinha há décadas no armário. Um rapaz com uma capanga é muito moderno, mas alguém como eu de pochete na cintura ou cebolão no pulso será apenas um tiozão militante. Fim de linha para o retrô de ponteiros.

Descobri que os terroristas eram identificados nos aeroportos por usar um Casio digital, bem básico, mas eficiente para bombas-relógio. Virou moda entre os hipsters. Mesmo tendo consciência que o maior terrorismo de que sou capaz é atrasar o pagamento do condomínio, fiquei sonhando que tal relógio me colocaria em algum lugar entre o rebelde e o fashion e o melhor, custando o mesmo que uma camisa. Mais uma ilusão que durou pouco: os hipsters e os rebeldes que usavam esse relógio também me olhavam como o vendedor da loja moderna e o jornaleiro.

Descartados os papéis de terrorista, hipster e rebelde, resolvi manter o digital barato no pulso, tentando posar de franciscano despojado, aquele que não se liga em bens materiais, muito menos em valor de objetos pessoais. Me sentia bem até o episódio da banca da Jardim Botânico, quando descobri que o atual valor dele era menor que o de um par de meias. Percebi que o meu desapego fake tinha cruzado a tênue fronteira e se transformado na mais legítima mesquinharia.

Estava perdendo o meu tempo: o caro não fez um bonito, o barato não estava pegando bem. Chegara o momento de fazer uma cerimônia com pompa e circunstância.

Ofereci o Casio — ao menos é japonês — ao meu filho.

Ele olhou com desprezo e decretou sem pena: isso é coisa de velho, a gente vê a hora no celular.

Tá na hora de aprender: o tempo passa com ou sem relógio.

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