Acidez de Renan é adereço que Bolsonaro necessita para carnavalizar a CPI – JOSIAS DE SOUZA, UOL

Josias de Souza

Colunista do UOL

29/04/2021 05h06

Às vésperas da instalação da CPI da Covid, a Casa Civil da Presidência entregou de bandeja uma lista com 23 fatos passíveis de investigação —da cloroquina encomendada ao Exército à ocupação militar do Ministério da Saúde. Sinal de desespero. Em seu primeiro discurso como relator da CPI, Renan Calheiros pendurou nos fatos alegorias desnecessárias. Sinal de despreparo. Citou, por exemplo, os ditadores sanguinários Slobodan Milosevic e Augusto Pinochet. Depois, avisou a Bolsonaro: “Crimes contra a humanidade não prescrevem jamais.”

Ou a CPI força Renan a despir a fantasia de radical ou vai acabar transformando uma investigação legislativa promissora numa grande micareta, o Carnaval fora de época idealizado por Bolsonaro. O plano da carnavalização foi esboçado no cercadinho do Alvorada. “Você vê: essa CPI vai investigar o quê?”, perguntou o arlequim, sem máscara, ao um grupo de foliões. “Eu dei dinheiro para os caras. No total, foram mais de R$ 700 bilhões, auxílio emergencial no meio. Muitos roubaram dinheiro, desviaram.”

Os “caras” são os governadores e os prefeitos. O dinheiro que Bolsonaro diz ter dado é a verba pública destinada a combater a pandemia. Uma parte foi aplicada diretamente pela União. Bolsonaro faz pose de doador-geral da República porque joga na confusão. Os que “roubaram” estão recebendo visitas dos rapazes da Polícia Federal. Ao sonegar os nomes dos larápios, Bolsonaro atinge com sua maledicência a todos os governadores. Inclusive Renan Filho, o governador de Alagoas. “A CPI vai chamar ou vai querer fazer Carnaval fora de época?”, fustigou o capitão, no pressuposto de que Renan, o pai, morderá a isca.

Como toda CPI, a comissão da Covid é um organismo político. Parece paradoxal, mas sua relevância será maior se os seus membros forem capazes de realizar um trabalho técnico. Para tirar a CPI da trilha que conduz ao skindô-skindô, os senadores precisam prestar atenção não no lero-lero crispado do relator Renan, mas num mantra recitado por um senador que ocupa na comissão uma vaga de suplente. Chama-se Alessandro Vieira (Cidadania-SE). Atuou como delegado por duas décadas.

Foi como delegado que Viera aprendeu que “investigações devem partir de fatos, não de pessoas.” Os fatos que fizeram da Presidência de Bolsonaro um desastre sanitário são conhecidos. Avalia-se que, esmiuçando-os a CPI chegará ao gabinete presidencial sem recorrer a adjetivos ou ameaças. Gravada pelo senador goiano Jorge Kajuru, a voz de Bolsonaro soou numa fita pedindo ajuda para fazer “do limão uma limonada” na CPI. Sabe-se agora que o capitão deseja tomar o seu suco de limão acomodado numa arquibancada da Avenida Marques de Sapucaí.

“Se não mudar o objetivo da CPI, ela vai vir pra cima de mim”, queixou-se Bolsonaro a Kajuru. Ele pedia uma “CPI ampla”, para “investigar ministro do Supremo”. Agora, contenta-se se conseguir jogar os governadores no ventilador. “Se não mudar a amplitude, a CPI vai simplesmente ouvir o Pazuello”. Para desassossego do inquilino do Planalto, integrantes do G-7, o grupo majoritário da CPI, refinou o seu foco em reunião realizada na noite de quarta-feira (28). Pazuello será ouvido na quarta-feira (5). Na véspera, terça-feira (4), serão inquiridos, como convém, os antecessores Henrique Mandetta e Nelson Teich. No dia seguinte (6), o sucessor Marcelo Queiroga.

O governo continua emitindo sinais de desespero. A penúltima novidade foi a descoberta de que partiram de um computador instalado no Planalto requerimentos protocolados na CPI pela tropa minoritária do governo. Entre eles os pedidos para ouvir especialistas em cloroquina. Foi de inspiração palaciana também o mandado de segurança que aliados do presidente na CPI ajuizaram no Supremo para afastar Renan da relatoria por suposta falta de isenção.

Por sorteio, a peça foi enviada à mesa do ministro Ricardo Lewandowski. Numa escala de zero a dez, a chance de Lewandowski afastar Renan do posto de relator é de cinco pontos abaixo de zero. Tanta tranquilidade talvez permita ao multi-investigado relator da CPI trazer suas raivas e idiossincrasias na coleira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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