A FOME CINZA – LEANDRO KARNEL, ESTADÃO

A fome cinza
Em ano de inflação e desemprego, o carnaval teria sido o momento para se exorcizar tudo

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo
02 de março de 2022 | 03h00

O calendário religioso criou ritmos, festas, cores e períodos especiais. Assim, o ano astronômico dialogava com períodos de penitência (quaresma), de alegria (tempo pascal) ou de espera (advento). A terça-feira de carnaval, “terça gorda”, era o último dia para consumir carne vermelha antes dos jejuns e abstinências seguintes. Devia ser o afastamento da carne (carnem levare) e a aceitação do sacrifício.

Os 40 dias seguintes (daí quadragésima, quaresma) passam para muitos de nós mais como um início de ano real do que ciclo que conduz à Sexta da Paixão. A Marcha da Quarta-Feira de Cinzas (Vinicius/Carlos Lyra) anuncia certa tristeza, porém, insiste que é preciso cantar. A tristeza existe pelos sempre mais perfeitos carnavais passados da memória que tudo molda. A música, lançada em um momento de polarização política (1963) com similaridades ao nosso: “E no entanto é preciso cantar / Mais que nunca é preciso cantar / É preciso cantar e alegrar a cidade”.


Em ano de desemprego, inflação e batalhas campais no campo das eleições, o carnaval teria sido o momento catártico de uma festa enorme com poderes de exorcizar todo o resto. Todavia… entre as pragas atuais, temos a resistência épica do vírus que insiste em nos ensinar novas letras do alfabeto grego e tornar opacas algumas expectativas. Sim, é preciso cantar, todavia, ainda há poucos motivos para fazê-lo.

A abstinência de carne e o jejum são realidades tristes impostas mais pela crise do que pela piedade religiosa. Existe uma emergência alimentar no Brasil. A Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional) estimou, há poucos meses, que havia 19 milhões de pessoas passando fome e assombrosos 55% das famílias brasileiras em situação de insegurança alimentar. É impossível naturalizar esses números trágicos que mostram a dor de tantos e uma sombria indiferença de outros.

Há quase 120 milhões de brasileiros que fazem jejum sem ser por opção religiosa. Isso deveria tocar o coração de quem se diz cristão, ou se diz cidadão, ou, apenas, considera-se um ser humano. Talvez o último argumento seja de ordem estratégica: imaginar a maioria de um grupo social se aproximando da ideia do saque de mercados como única alternativa à fome deveria inspirar medo, ao menos.

Versalhes aprendeu com custo alto o que significa indiferença à miséria. Quando muitos perdem a chance de se alimentar, alguns podem perder a cabeça. Seria bom introduzir esperança na quaresma.

A FOME CINZA – LEANDRO KARNEL, ESTADÃO
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