Além das mortes diárias, brasileiros vivem uma morte simbólica – MIRIAN GOLDENBERG, FOLHA

Além das mortes diárias, brasileiros vivem uma morte simbólica
Entre os adjetivos usados para os culpados pela tragédia, talvez ‘inominável’ seja o melhor

É assustador testemunhar mais de 200 mil mortes e mais de oito milhões de contaminados no país. É desesperador ver o número de mortes aumentar a cada dia e assistir impotente a uma guerra política que demonstra o desprezo pelas vidas dos brasileiros.

Estamos experimentando uma espécie de morte simbólica: morte da esperança, morte da alegria de viver, morte da racionalidade, morte da nossa própria humanidade. Parece que o único objetivo das autoridades é matar, exterminar, destruir tudo o que poderia construir uma sociedade mais justa, democrática e igualitária, com saúde, educação e trabalho para todos. Nunca nos sentimos tão vulneráveis, impotentes e frágeis nas mãos sangrentas de sociopatas que dão risadas do nosso sofrimento.

O pânico e a desesperança são irmãos gêmeos. Amizades desfeitas pelo ódio e intolerância, famílias divididas pela polarização insana, sonhos destruídos pela mesquinhez e ignorância. É impossível compreender como tantos brasileiros apoiam e se identificam com projetos de destruição, violência e morte.

São incontáveis os adjetivos usados para qualificar os culpados pela tragédia que estamos vivendo: genocidas, assassinos, psicopatas, criminosos, bandidos, negacionistas, mentirosos, ignorantes, incompetentes, covardes, fascistas, fanáticos, insanos, asquerosos, nojentos, repugnantes, odiosos, repulsivos, desprezíveis, torturadores, sádicos, sórdidos, monstros, desumanos, facínoras, perversos, crápulas, canalhas, vermes, demônios e outros que não posso publicar aqui.

Mas nenhum deles é suficiente para expressar o horror por esses seres ignóbeis que compactuam com o genocídio dos brasileiros.

Na busca para encontrar uma definição para esse pesadelo, descobri o adjetivo “inominável”.

Inominável é tudo o que não tem nome, o que não pode ser nomeado porque é demasiadamente abominável, cruel, abjeto e vil. O que é tão sem explicação, irracional, ilógico, incompreensível que não é possível definir com palavras. Aquele monstro totalmente desprovido dos sentimentos de respeito, empatia, amor, compaixão, generosidade esperados dos humanos que não dá para qualificar.

É exatamente o que os brasileiros sentem na própria pele sem conseguir encontrar um nome para os criminosos responsáveis pelo desespero, dor e sofrimento que estamos enfrentando. É o inominável.


Mirian Goldenberg
Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio, é autora de “A Bela Velhice”.

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