Amor à família é álibi perfeito – VERA IACONELLI, FOLHA

A lógica bolsonarista revela o típico amor da elite brasileira

O amor, grosso modo, é a solução que nós humanos criamos para suportar uns aos outros, criar uma sociedade e, com isso, garantir nossa sobrevivência. O que pode parecer altruísmo e elevada espiritualidade revela-se estratégia vital ancorada em uma manobra narcísica. Amo antes de tudo a mim mesmo e, quando passo a amar o outro é na esperança de que ele me ame também e não me elimine na primeira oportunidade.

Amar é demandar amor. “Eu te amo” pode ser uma das piores frases a se ouvir, quando a recíproca não é verdadeira, pois a expectativa que o outro nos impõe é enorme. Quando há reciprocidade, mal começa o coro de anjos e já tememos pelo seu fim –amantes não têm sossego mesmo!

Filhos do presidente Jair Bolsonaro acompanham gravação de pronunciamento do presidente
Filhos do presidente Jair Bolsonaro acompanham gravação de pronunciamento do presidente – @BolsonaroSP no Twitter

Reza a lenda que o amor entre pais e filhos é garantido e o fato de não termos uma palavra que nomearia o status de pessoas que desistiram dos filhos mostra nossa dificuldade em pensar a questão. Não deixa de ser verdade que, por ser dos laços mais narcisistas –posto que a descendência alimenta nossa fantasia de continuidade–, o amor filial costuma ser dos mais insistentes mesmo. Exemplos de relações parentais fracassadas abundam, embora tendam a ser ignorados ou patologizados.

Quanto aos amores de casais, viúvos e viúvas têm o “péssimo hábito” de casarem novamente, deixando a amarga sensação de que seríamos substituíveis. Filhos, por sua vez, estão condenados a elaborar as primeiras e fundamentais relações amorosas e, portanto, têm mais dificuldade em se livrarem da onipresença parental. São anos de análise tentando fazê-lo.

Ao reconhecermos que os laços amorosos são trabalhosamente construídos, só podemos concluir que são potencialmente destruíveis. Responsável pela igualmente necessária separação entre nós, o ódio vem antes do amor, que dele decorre. A relação dialética entre amor e ódio permite que tenhamos encontros significativos, mantendo a sanidade da separação. Segundo Lacan, o amor seria dos mais belos sintomas, quer dizer, o inventamos para tentar dar conta do desamparo fundamental, que nos fez depender desesperadamente do outro.

Por meio do amor obtemos o reconhecimento e a proteção necessários para nos tornamos humanos; a satisfação erótica e sexual; as relações de amizade e a chance de nos reinventarmos a partir do encontro com a alteridade. Feito para nos proteger uns dos outros, acaba por mostrar-se melhor do que a encomenda, quando nos faz superar nossa mesquinhez ordinária e se transforma em solidariedade.

Sem ele, a indiferença correria solta e teríamos milhares de mortes desnecessárias, fruto de nosso profundo desinteresse pelos demais. Estaríamos passeando pelas ruas sem máscara ou pedindo a volta da ditadura, matando crianças por ação ou omissão e outras formas de horror à vida.

É claro que sempre podemos alegar que amamos nossa família –costuma ser verdade–, mas isso só serve como álibi. O amor que se resume aos nossos familiares e iguais e que despreza os laços sociais e os desconhecidos revela-se fracassado de saída.

O amor que recebemos ao longo da infância precisa ir muito além do privado. Partindo de nós mesmos deve ir em direção aos pais/cuidadores; da família em direção à comunidade; e da comunidade em direção a toda humanidade e, porque não, a todas as formas de vida. Sem a passagem do amor filial para o social mais amplo, cada família se torna um pequeno “bunker” a se proteger das demais, em estado de permanente guerra.

O Brasil padece de famílias “Bolsonaro”, protetoras dos seus e destruidora dos demais.

Vera Iaconelli

Diretora do Instituto Gerar, autora de “O Mal-estar na Maternidade” e “Criar Filhos no Século XXI”. É doutora em psicologia pela USP.

Amor à família é álibi perfeito – VERA IACONELLI, FOLHA
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