ANOS: OS DEZ QUE PASSARAM, OS DEZ QUE VÊM – PEDRO DORIA – ESTADÃO

Os dez que passaram, os dez

Este bloco de dez anos é útil porque ilustra o violento ritmo de avanço tecnológico pelo qual passamos

O que hoje consideramos básico no celular foi inventado em 2010 com o iPhone 4

O que hoje consideramos básico no celular foi inventado em 2010 com o iPhone 4

É um anacronismo, mas ainda falta um ano para o fim da década. Só quando virar 2021 que terá início a terceira década do século 21. Ainda assim, podemos com alguma liberdade ao menos dizer que os anos 10 estão se encerrando. Este bloco de dez anos é útil porque ilustra o violento ritmo de avanço tecnológico pelo qual passamos, coisa que no cotidiano é muito fácil perder de vista. Nada melhor, neste exercício, do que a lista preparada pelo site The Verge com os 100 mais importantes lançamentos do período.

O maior deles, número um da lista, é o iPhone 4. Foi o primeiro a ter uma câmera de qualidade, que permitiu adotarmos de vez o celular como a máquina fotográfica da família. Foi o primeiro que ensanduichou metal e vidro para produzir um aparelho com aparência sólida. O primeiro com câmera de selfie. O que hoje consideramos básico no celular foi inventado ali, em 2010. O último iPhone apresentado por Steve Jobs.

O quarto da lista é o Galaxy S6, da Samsung. Primeiro celular com tela curva, foi o aparelho que mudou os Androids de patamar. Com acabamento impecável, numa linguagem de design que ainda hoje encontramos no topo de linha da marca, mostrou que aparelhos Android podiam enfrentar os da Apple de igual para igual — popularizando assim, de vez, os smartphones.

O quinto maior lançamento foi o primeiro Tesla popular — o Modelo S. O segundo é a primeira geração da caixa de som inteligente Echo, da Amazon. Apontam para o futuro: nestes próximos dez anos, veremos o avanço de carros elétricos e autônomos, assim como casas e cidades controladas por comandos de voz. Não é pequena a mudança.

Em janeiro de 2010, as cinco companhias de maior valor de mercado nos EUA eram, como foram por quase todo o século 20, bancos e petroleiras — com a visita de tempos em tempos da GE. Hoje são, alternando-se na ordem, Apple, Google, Facebook, Amazon e Microsoft. No último decênio, acabou a Era Industrial e teve início a Era Digital.

Em 2010, ainda comprávamos CDs e  frequentávamos locadoras de DVDs em busca do que assistir  no fim de semana. Toda a indústria do conteúdo — música e jornalismo, publicidade e entretenimento — já foi profundamente transformada. Em alguns casos, os efeitos são confortos. Carregamos toda música que podemos querer no bolso. Noutros, a coisa é mais densa — a interrupção por muitos do hábito de se informar sobre a política  de forma sistemática favorece a eleição de demagogos e extremistas.

Vai mais fundo

O rearranjo de todas as indústrias muda as entranhas da economia. As empresas se tornam mais enxutas — porque a lucratividade baixou, porque a automação o permite, ou por ambos. Empresas saíram consolidando, criando grandes conglomerados que, em muitos setores, se tornaram monopolistas, diminuindo a competição. Mais gente trabalha por conta própria — seja dirigindo Uber, seja montando startups, ou mesmo porque trabalhar de forma remota possibilitou independência.

Na transformação das relações de trabalho, a legislação que o mundo imaginou na década de 1930 se tornou anacrônica e quase todos os partidos de esquerda — não é só aqui — ainda não conseguiram aceitar a transformação. A obsolescência do pensamento de esquerda é um dos motivos pelos quais assistimos a um avanço mundial da extrema direita. Preocupa. Porque extremos são ruins, porque há questões habitualmente encaradas pela esquerda que carecem de atenção — mas com soluções novas.

Tudo indica que todos estes debates estarão ainda mais vivos nos anos 20 que ora chegam.

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