Apesar de – ROBERTO MAGALHÃES, JORNAL DA CIDADE, BAURU

A palavra tempo rima com a palavra fim. Não em sonoridade, que a dissonância é flagrante, mas com ideia de que tudo acaba. É o que tempo sabe melhor fazer: desgastar, corroer e com tudo acabar. Nascer e morrer, as duas pontas; no meio, os dias pedem que neles nossa história escrevamos. E por mais velozes que sejam as asas do tempo, nunca sairemos do hoje. Sendo crianças, jovens, adultos ou velhos, estaremos sempre vivendo o momento presente, o instante do agora. O ontem e o amanhã nunca nos pertenceram. Quem gosta de refletir concordará com Dalai Lama: “Só existem dois dias no ano em que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro, amanhã; portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e, principalmente viver.”

Nessa linha de raciocínio a “esperança”, sempre louvada poeticamente como algo desejável, não deixa de ser adversária. Ela desloca o nosso querer para o futuro; torna-nos ansiosos pelo que virá; põe-nos em tensão com o que nos falta. Daí, a observação do filósofo contemporâneo André Comte Sponville: “A sabedoria está, pois, em esperar menos e amar mais”. Esperar mais é felicidade adiada, e quando a meta for alcançada, nossos olhos, já saciados, estarão se comprometendo com novo querer. Sêneca aponta na mesma direção: “Enquanto se espera viver, a vida passa”.

O instante mais precioso da vida é este que estamos vivendo agora e as pessoas mais importantes do mundo são aquelas que conosco estão. Não obstante, a clareza de tal verdade, insistimos em carregar nas costas, como animais de carga, o peso do que já foi e do que um dia poderá ser. Muitos ficam aprisionados à lembrança de um passado feliz de muitas realizações; outros sofrem pelo que esperam acontecer. São sofreres inaceitáveis, que roubam a possibilidade de um presente realizador.

Sempre é hora de escrevermos nossa história no tempo, conscientes de que o túmulo é a inevitável realidade que se nos desenha no horizonte. Vida é narrativa com ponto final. A caneta está, como sempre esteve, em nossas mãos. Podemos escrever história que nos engradeça, ou enredo que nos apequene. Hora de lembrar essa lindeza poética de Rubem Alves: “As florescências do outono, eu as acho mais bonitas que as da primavera. As florescências da primavera são “por causa de”; as florescências do outono são “a despeito de”.

A despeito das inevitáveis feridas da vida, apesar de todas as perdas que o tempo nos impõe, algumas pessoas ainda estão florescendo em pleno outono, tempo de árvores despidas e de folhas secas esparramadas pelo chão. Florir na primavera que mérito há? Na primavera, as flores são lindas porque é tempo de lindas serem. No outono, é diferente: as flores resistem lindas “apesar de”. Como é gratificante ver e conviver com pessoas outonais que, ainda assim, continuam florescendo. Para elas, enquanto vida houver, flores haverá.

O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais1

Apesar de – ROBERTO MAGALHÃES, JORNAL DA CIDADE, BAURU
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