APRENDER COM A HISTÓRIA – ANTONIO DELFIM NETTO – FOLHA

Brasil precisa criar condições para aumentar a produtividade média

Temos, hoje, uma sociedade profundamente dividida por preferências religiosas e preconceitos ideológicos que se recusa a reconhecer um fato físico desagradável. Para aumentar o seu consumo, só há uma via: aumentar a produção. E, para aumentá-la, também só há um caminho: o aumento da produtividade geral do trabalho.

Carros da Volkswagen no pátio da fábrica de Taubaté – Lucas Lacaz Ruiz – 25.nov.2014/Folhapress

Toda sociedade tem que resolver o primeiro problema: atender às necessidades de sua sobrevivência material. Há pelo menos dez mil anos, quando os homens controlaram a produção de cereais e domesticaram alguns animais, eles vêm testando —como numa seleção natural— formas alternativas de organização que combinem três objetivos não inteiramente compatíveis entre si: 1. a liberdade individual, 2. a relativa igualdade e 3. a eficiência produtiva que lhes dará o máximo de tempo livre para realizarem plenamente a sua “humanidade”. Transcenderão, afinal, a “animalidade” que se esconde na sua natureza.

Estarão, todos, na Utopia, um lugar no Céu onde, canonizados, já não terão necessidades materiais…
Tudo bem. Não há nenhum mal em perseguir tal objetivo. O ruim é ignorar as restrições físicas que são os obstáculos no caminho para a Utopia. É aqui que o conhecimento acumulado há séculos na disciplina chamada de economia política pode nos ajudar.

Quais as suas lições? 1º) que vivemos num mundo de escassez: nossos desejos são sempre muito maiores do que nossa possibilidade de atendê-los; 2º) teremos, assim, que fazer escolhas: todo recurso escasso tem usos alternativos; 3º) se vou usá-lo na produção do bem A, não poderei utilizá-lo na produção do bem B. Existe, portanto, um “custo de oportunidade”. Por exemplo, se vou produzir um submarino, não posso atender o Bolsa Família. É preciso, portanto, acomodar o seu uso às prioridades do interesse social; 4º) os preços relativos estabelecidos em mercados competitivos revelam os “custos de oportunidades”; 5º) o bom funcionamento desses mercados depende da instituição do direito de propriedade, garantido pelo Estado, e 6º) Estados fortes, constitucionalmente controlados por consenso social, foram essenciais ao processo civilizatório dos países hoje desenvolvidos. Todos preferiram a evolução em lugar de sonhar com a revolução.

O programa da área esclarecida do governo Bolsonaro tenta recuperar o caminho virtuoso. O perigo são as reações intempestivas do próprio presidente, como a sua intervenção na decisão da Aneel, onde ele, obviamente, desviou-se dele.

De qualquer forma, se não continuar a criar as condições para o aumento da produtividade média do trabalho, o Brasil não tem futuro.

Antonio Delfim Netto

Economista, ex-ministro da Fazenda (1967-1974). É autor de “O Problema do Café no Brasil”.

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