Aristocratas da pandemia acham que todos comem brioches – LUIZ FELIPE PONDÉ, FOLHA


Ir à restaurante? Chique é cozinhar em casa

Além de médico, a pandemia é um fato social. Ela estabelece um contrato social temporário no espaço de tempo em que prevalece. E já vivemos nele. Os sinais e sintomas estão por toda parte.

O mercado da pandemia pode ser visto a olhos nus —da corrupção com respiradores ao aumento de vendas online, passando pelo networking de gente bonita e bacana no Instagram, gerando um mailing potencial para o futuro.

Há ainda a empolgação de cientistas de ocasião com seus 15 meses de sucesso, a mídia em geral com aumento de leitores, de audiência e de seguidores, fora os políticos para quem a pandemia é matéria-prima eleitoral. Sintomas óbvios como a luz do sol. A torcida pelo vírus já é um clássico.

Relacionado a esse mercado, ainda que não redutível a ele, está a aristocracia da pandemia. É um imperativo sociológico descrevê-la.

Uma das suas primeiras evidências, no âmbito do uso da linguagem política, é esculhambar como a doença foi combatida nos Estados Unidos e no Brasil, mas considerar a Suécia um caso a parte.

Sabemos que a Suécia não praticou lockdown (uma das palavras mais chiques em meio à semântica aristocrática do contexto atual). Só que tudo na Suécia é tão chique quanto a sua indústria do design e o seu cinema. Qual aristocrata da pandemia teria coragem de criticar a Suécia?

Outro traço dessa aristocracia é achar um horror as pessoas ficarem felizes com a reabertura dos shoppings. É claro que antes ela já estava por aí desfilando seu horror à cultura do shopping. Ir a restaurantes? Um horror! O chique é cozinhar brócolis em casa.

(Diga-se de passagem, vestir-se bem para ir a shoppings é brega mesmo).

Entendo que se faz necessário deixar claro para a nossa leitora que um aristocrata da pandemia é um alienado da realidade que o cerca, aliás, como todo aristocrata ao longo da história.

Ele deseja um lockdown quando estava isolado em sua casa de campo ou em uma praia longe do povo horroroso e de suas aglomerações. Costumava falar excitadamente da Nova Zelândia e da Islândia como modelos sociais a serem seguidos, sendo que a população somada dos dois países é menor do que a torcida infantojuvenil do Corinthians.

Essa aristocracia também não consegue entender a razão de a população mais vulnerável querer que seus filhos voltem para escola —para comer e para que as mães possam trabalhar.

Mas é fácil entender essa dificuldade cognitiva. Com poucos ou nenhum filho —ou, no caso de terem crianças, contam com uma equipe de bots de última geração para lidar com elas—, esses aristocratas não sabem que, ao ficarem em casa, os filhos das camadas mais pobres fatalmente vão comer pior do que na escola.

Acostumada a uma alimentação balanceada e orgânica, vinda da mesma Suécia que venera, essa aristocracia, mesmo quando ostenta títulos de doutor em ciências, ainda permanece sem noção da realidade. E acha que todos comem brioches e que o mundo cabe em seus microscópios.

Está em jogo mais do que uma aversão ao risco, como índica muito bem o sociólogo Frank Furedi. Existe uma incapacidade de perceber que, na perspectiva de uma história de longa duração (como dizia o historiador francês Fernand Braudel, por exemplo, em seu grandioso “O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo na Época de Filipe II”, lançado em dois volumes na edição monumental da Edusp, de 2016), a humanidade tem no seu repertório a experiência de lidar com elementos “imóveis”, fato que percorre o fundo do oceano ancestral humano.

Em meio a esses elementos “imóveis” ou “geográficos”, como dizia Braudel, podemos incluir as pestes, que nos são muito mais familiares do que os iPhones. A humanidade chora, morre, enterra seus mortos, se defende das pestes como é possível localmente e lida com as guerras da maneira que consegue —e segue adiante.

Essas pessoas não são os idiotas, como quer acreditar nossa vã aristocracia. Elas são os filhos dos Homo sapiens e os primos dos neandertais.

Creio que um dos maiores danos cognitivos da modernidade é a perda dessa percepção de história de longa duração. Achamos que o mundo nasce com cada um de nós.

É claro que devemos combater a pandemia. Mas ela nos fará sofrer antes de ela mesma morrer. E, em cinco anos, ninguém vai se lembrar mais.

Luiz Felipe Pondé
Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP.

Aristocratas da pandemia acham que todos comem brioches – LUIZ FELIPE PONDÉ, FOLHA
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