ARMAGEDOM – ROBERTO POMPEU DE TOLEDO – REVISTA VEJA

Armagedom

Bolsonaro e Trump exibem igual déficit de compaixão pelo sofrimento alheio

Por Roberto Pompeu de Toledo – Atualizado em 5 jun 2020, 13h33 – Publicado em 5 jun 2020, 06h00

Policiais acompanham protesto em Nova York Caitlin Ochs/Reuters

1 I can’t breathe foi alçado, de grito desesperado, à divisa da mais ampla rebelião nos Estados Unidos desde os anos 1960. “I can’t breathe”, “Não posso respirar”, implorava o negro George Floyd ao policial branco com o joelho em seu pescoço. “I have a dream”, “Eu tenho um sonho”, entoava Martin Luther King, em seu famoso discurso. O sonho era do dia em que “cada pessoa seria julgada não pela cor da pele, mas pelo caráter”. É a maior das vergonhas, para a nação americana, que o esperançoso I have a dream tenha encontrado contraponto, no século seguinte, no agônico I can’t breathe.

2 Donald Trump não inventou o racismo americano. Mas não é coincidência ter ocorrido em seu reinado a cena de um policial impassível aos apelos desesperados de um homem rendido e estendido no chão. Trump é a mais explícita encarnação do macho branco e racista a ocupar a Casa Branca. No Brasil, tenta-se imitar o que a tradição dos Estados Unidos tem de mais macabro. No sábado 30, um grupo encenou protesto diante do STF trajando túnicas pretas, a cabeça coberta por máscaras brancas e as mãos a segurar tochas acesas. A Ku Klux Klan do cerrado cavava o seu lugar (só faltava ela) na conflagrada cena brasileira.

3 Trump, o machão, deixou a Casa Branca ao cair da tarde de segunda-feira, dia 1º, e a passos decididos atravessou a Praça Lafayette, sozinho como Gary Cooper ao encontro do bandido, em direção à Igreja de Saint John. Piedoso, carregava uma Bíblia. E parou em frente à igreja, silencioso, voltado para os fotógrafos e cinegrafistas, com os objetivos de (1) desagravar o sagrado edifício, chamuscado no dia anterior pelas fogueiras dos manifestantes e (2) mostrar que não tem medo de multidões hostis, ao contrário do que se poderia supor do fato de, no bafafá da véspera, se ter refugiado no subterrâneo da residência presidencial. Detalhe: o gesto de macheza foi precedido por um festival de gás lacrimogêneo e balas de borracha disparados para dispersar os manifestantes e deixar a praça livre para o destemor presidencial.

4 Macheza por macheza, nosso presidente não fica atrás. Em mais um domingo de diversão ao ar livre, Jair Bolsonaro subiu num helicóptero do Exército para cobrir os 4 quilômetros entre os palácios da Alvorada e do Planalto. Ao seu lado, não bastasse o helicóptero militar, ia o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva. (Até quando aceitar papéis semelhantes, ó generais?) Na Praça dos Três Poderes, inebriado do sol da manhã, do entusiasmo dos fãs e de macheza, arrebatou o cavalo de um PM e, ainda que algo canhestro, ao modo balança mas não cai, conduziu o rocinante a uma volta triunfal, como à sua hora amava fazer o duce Benito Mussolini, outro histórico macho.

5 Bolsonaro e Trump exibem igual déficit de compaixão pelo sofrimento alheio. Trump não passou de uma condenação pró-forma ao assassinato de Floyd; reservou sua energia para chamar os governadores de fracos, por não reprimirem as manifestações, e ameaçar pôr “milhares e milhares” de militares nas ruas. Bolsonaro, convidado a se pronunciar sobre a ultrapassagem dos 30 000 óbitos na pandemia no Brasil, respondeu: “A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”. Evoluiu do “E daí?” para “Lamento, mas…”.

6 Dos registros da história do Brasil constam três históricas reuniões ministeriais conhecidas em detalhes. A primeira, na noite de 23 de agosto de 1954, discutiu a renúncia ou licença de Getúlio Vargas e, estendendo-se pela madrugada, resultou no suicídio do presidente. A segunda, a 13 de dezembro de 1968, sacramentou a edição do Ato Institucional Nº 5. A elas veio se juntar a do dia 22 de abril de 2020. As duas primeiras resultaram em tragédias — o sacrifício de uma vida, num caso, o das liberdades, no outro. A terceira não produziu ainda consequência tão drástica, mas tem potencial para tanto. Nessa expectativa nos aguentamos.

7 De Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia em 2008, em sua última coluna no The New York Times: “Donald Trump, longe de acalmar a nação, está pondo gasolina no fogo; ele parece muito perto de tentar incitar a uma guerra civil”. De Bolsonaro, na famosa reunião ministerial: “Por isso que eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme! (…) Por que que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura! E não dá para segurar mais. Não é? Não dá para segurar mais”. O armagedom é o último refúgio dos machões de opereta.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

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