AS NOTAS DOS MILITARES – JOSIAS DE SOUZA, BLOG DO JOSIAS NO UOL

No curto intervalo de duas semanas, o general Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa, divulgou um par de notas oficiais. Nos textos, proclamou o óbvio: as Forças Armadas devem obediência à Constituição. E estão comprometidas com a democracia. Uma manifestação do gênero já indicaria a existência de um problema. Duas sinalizam que o problema é grave.

Como um centauro metafórico, o aparato militar mantém a cabeça nas alturas do regime democrático e o corpo aqui embaixo, na companhia tóxica de um presidente que propaga o vírus da anarquia institucional em manifestações antidemocráticas —ora defronte do QG do Exército, ora diante da rampa do Planalto.

O general Azevedo e Silva faz uma colagem de palavras para passar a impressão de que contradiz o presidente, ecoando-o. “As Forças Armadas estarão sempre ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade”, anotou o general. “Este é o nosso compromisso.”

Na véspera, ao confraternizar com súditos que defendem o fechamento do Congresso e do Supremo, além de uma “intervenção militar com Bolsonaro”, o capitão dissera: “Vocês sabem que o povo está conosco. As Forças Armadas, ao lado da lei, da ordem, da democracia e da liberdade, também estão ao nosso lado.”

Em timbre de ameaça, Bolsonaro acrescentou: “Peço a Deus que não tenhamos problema nesta semana, porque chegamos no limite. Não tem mais conversa. Daqui para frente, não só exigiremos. Faremos cumprir a Constituição. Será cumprida a qualquer preço.” Faltou identificar o alvo (STF?) e definir “a qualquer preço”.

Na nota de 15 dias atrás, o general Azevedo e Silva já havia gastado tinta para proclamar que as Forças Armadas atuam para “manter a paz e a estabilidade do país, sempre obedientes à Constituição.”

A cabeça do centauro, adornada pelo quepe, assegura que a democracia brasileira está a salvo, guarnecida por sua Constituição. E Bolsonaro cuida para que o corpo do centauro continue namorando com o autogolpe em manifestações de conteúdo anticonstitucional.

Aos pouquinhos, vai se consolidando sob Bolsonaro o projeto de transformar o Brasil numa república de bananas. Assim eram chamadas as nações da América Central governadas por oligarquias precárias.

Um país em que as Forças Armadas precisam dar notas oficiais como as bananeiras dão cachos não passa boa impressão para o mundo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

 

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