Ata do depoimento dos irresponsáveis – CARLOS ANDREAZZA, O GLOBO

Consideremos – ingênuos que somos – que houve um problema de comunicação. (Não terá sido novidade.)

Que a Anvisa não foi devidamente informada, em detalhes, sobre a causa da morte de um voluntário que testava a CoronaVac. Ok. E que não seria burocraticamente possível – não seria o canal formalmente adequado – pegar o telefone e chamar ao Butantan para tirar dúvidas e preencher lacunas. Ok.

Que, então, resolveu-se, com base no protocolo, determinar a suspensão dos estudos. Não foi ato exorbitante – atestam os técnicos. (Tendo, no entanto, a direção da agência avaliado como razoável divulgar a decisão daquela maneira sensacionalista, que assusta as pessoas, desacredita uma vacina, alimenta o zap-profundo; e me autoriza a ler ali a ação de um órgão de controle que tem lado na briga política cuja existência o próprio diretor-presidente da Anvisa admitiu.)

Que, pego de surpresa e contrariado ante o movimento (traiçoeiro) da agência, o governo de São Paulo, dando a sua contribuição à cultura do uso do aparelho público pelo governante de turno, achou por bem vazar a natureza da morte do voluntário – suicídio, tudo indica que sem relação com a vacina – para a TV Cultura. (Com o que deixaria claro à sociedade, pela ausência de causalidade entre teste e óbito, que a interrupção dos estudos teria sido desnecessária.)

Que a Anvisa, exposta e posta contra a parede, sentindo-se talvez intimidada, injustiçada, decidiu falar à imprensa para se explicar. Ou melhor: para se defender…

Tudo errado. Paciência. Já foi.

Desde ontem, no entanto, com os esclarecimentos feitos (e com os ressentimentos todos colocados à mesa, num espantoso oferecimento de desconfianças), e dada a chancela do comitê internacional que controla os trâmites, o que ainda explica que a agência não seja positiva – afirmativa, transparente, objetiva – sobre avalizar a retomada dos trabalhos?

Por que tivemos de ver, naquela entrevista coletiva oferecida quase em português, três diretores da Anvisa em atitude que oscilava entre evasiva e reativa? Por que ao espectador foi ministrado – para além de um shopping de dificuldades – aquele clima de suspeição entre instituições? Por que não se pôde dizer, com senso de prestação de serviço, quando – já! – será autorizada a continuação dos estudos? Por que, final, não se disse que estava tudo certo e a coisa andaria?

A partir do que ali se falou, donde se depreendeu uma postura burocrática para a má vontade, e à luz do comportamento de Jair Bolsonaro sobre essa vacina especificamente, pouco importa agora se a Anvisa tem gestão que subordina a técnica à política, enviesada a favor dos interesses do presidente da República, ou se está sendo politicamente usada pelo governante de turno.

Não importa. O fato, de um jeito ou de outro, é que a agência foi contaminada e se deixou intoxicar – para o que contribuiu a proximidade inaceitável entre seu diretor-presidente e Bolsonaro.

Ata do depoimento dos irresponsáveis – CARLOS ANDREAZZA, O GLOBO
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