Até Bolsonaro defender lockdown, mudança de discurso é ‘frescura e mimimi – LEONARDO SAKAMOTO, BLOG NO UOL

Leonardo Sakamoto

Colunista do UOL

24/03/2021 14h16

Jair Bolsonaro anunciou, nesta quarta (24), a criação de um comitê anticovid. O principal objetivo do presidente é evitar que ele continue sendo criticado pela escalada de mortes pela doença no país. O Brasil ultrapassa, nesta quarta (24), 300 mil óbitos pela pandemia, tendo registro mais de três mil mortes em 24 horas pela primeira vez na terça.

Participaram da reunião os presidentes da Câmara e do Senado, do Supremo Tribunal Federal, o procurador-geral da República, ministros, governadores e afins. Uma alternativa ao comitê seria o Congresso Nacional votar o afastamento e cassação de Bolsonaro ou a PGR encaminhar uma denúncia criminal contra ele ao STF e, de lá, à Câmara dos Deputados.

Mas, aí, resolveriam de vez a história, o que não parece ser o desejo dos envolvidos. O que reforça a ideia de que o Cemitério Brasil, mais do que o produto de uma só mente ou família, é um empreendimento coletivo, com muitos sócios.

Na prática, pouca coisa muda, uma vez que Bolsonaro não abraçou a única medida que, neste momento, seria capaz de reduzir de forma significativa a velocidade da linha de montagem de órfãos e viúvos: um rígido isolamento social. E não abandonou o charlatanismo, insistindo na distribuição de cloroquina e vermífugo – por mais que eles não funcionem contra a covid e estejam causando danos ao fígado e ao coração das pessoas.

Enquanto Bolsonaro não aceitar que o seu governo precisa articular imediatamente quarentenas e lockdowns com governadores e prefeitos e focar na construção de leitos e não na bobagem do “tratamento precoce”, tudo o que disser sobre o combate ao coronavírus será “frescura” e “mimimi” – para usar os termos por ele empregados em discurso contra isolamento no dia 4 de março.

O presidente está com a corda no pescoço. Precisa ganhar tempo enquanto a sua popularidade não cresce, adubada pela volta do auxílio emergencial (agora, em versão merreca) e pelo programa de manutenção de empregos. E enquanto a tardia e insuficiente campanha de vacinação não gera um impacto significativo nas taxas de mortalidade.

Ele precisa de um verniz civilizatório enquanto a segunda onda de infecção não passa. O problema é que empunhar o isolamento social como estratégia de sobrevivência seria visto como traição brava contra os bolsonaristas-raiz, aquele naco negacionista de seus seguidores que curte uma aglomeração, principalmente se for para pedir autogolpe militar.

Vamos ver até onde ele vai. Mas, pelo seu “histórico de atleta” político, a impressão é que não vai a lugar algum.

E o Brasil segue rumo aos 4 mil mortos por dia. Mas, agora, com um comitê.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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