BALAIO DO KOTSCHO – UOL

Ricardo Kotscho

Colunista do UOL

01/05/2021 12h41

O mundo não será destruído por aqueles que fazem o mal, mas por aqueles que observam sem fazer nada” (Albert Einstein).

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Por mais escura que seja a noite, sempre haverá um novo amanhecer.

Acordei hoje disposto a sacudir a poeira, tomar um banho de sal grosso e, contra todas as evidências, acreditar que é possível voltar a ser feliz aqui mesmo, sem sair do Brasil nem entregar o ouro à bandidagem.

Mesmo que quisesse desistir do Brasil, não teria para onde ir porque o mundo fechou as portas para nós.

Estamos condenados a juntar os cacos sob os escombros da terra arrasada e reconstruir nossa esperança, tijolo a tijolo, até colocar novamente de pé esse belo país, que não pode continuar de joelhos, de boca aberta, esperando a morte chegar.

Como foi possível ficarmos à mercê de meia dúzia de parvos a mandar nos nossos destinos?

Onde foi parar todo mundo que aceita uma desfeita dessas sem reagir?

Não me conformo em receber o prato feito do fato consumado, como se estivéssemos amarrados a uma bola de ferro, sem um horizonte à nossa frente, sem poder sequer sonhar com dias melhores.

Toda tristeza é paralisante e reacionária, mas não é para sempre. É preciso superá-la e encontrar atalhos para recuperar a alegria, a disposição de fazer de cada dia um novo motivo para ir à luta e se preparar para a hora da virada, enquanto a bola estiver rolando.

Temos muito jogo pela frente, não tem nada perdido. É só pensar nos nossos filhos e netos para voltarmos a acreditar em nós mesmos e juntos construirmos o futuro, que ninguém pode nos roubar.

Sem querer ser saudosista, ando com muitas saudades do Brasil, dos almoços de domingo com a família, em volta do fogão a lenha no sítio, do futebol na TV, dos encontros com velhos amigos, dos planos de viagens…

Sim, a gente fazia planos, tinha projetos, botava fé que tudo daria certo, não tinha medo do futuro.

De repente, tudo parece ser de um passado longínquo, mas ainda outro dia a gente tinha orgulho de ser brasileiro, era bem recebido em todo lugar, o Brasil era o país da moda, admirado por outros povos.

Deram um cavalo de pau na nossa história, fazendo o tempo correr para trás, sem dó nem piedade. O que era certo virou errado e vice-versa, o que era vida virou morte, o que era bonito virou feio, o que era esperança virou pesadelo, ninguém sabe mais o que é verdade e o que é mentira.

Neste redemoinho de sentimentos, me dei conta de que não tenho o direito de desanimar. Até agora, sobrevivi a mais um tratamento de câncer, dois meses de pauleira, entrando e saindo de hospitais, convivendo apenas com médicos, enfermeiras, cuidadores e outros pacientes na mesma situação.

Tem horas que o corpo parece ceder, mas a cabeça não deixa, vai sempre encontrar uma nova razão de viver, um dia de cada vez.

Cada dia que passa é uma vitória da vida sobre a morte.

Repito sempre para mim mesmo: no fim, tudo vai dar certo.

Não há mal que nunca acabe.

Vida que segue.

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