BOLSONARO ADOTA PRÁTICA QUE DIZIA SER “CORRUPTA” – JOSIAS DE SOUZA, BLOG NO UOL

Jair Bolsonaro notabiliza-se por dizer uma coisa e fazer o seu contrário. No discurso em que anunciou que pode recriar três ministérios, levou o hábito às fronteiras do paroxismo. Ao esticar a Esplanada para satisfazer as pulsões fisiológicas dos seus novos aliados no Congresso, o presidente recorre a uma tática que definia como “corrupta e perniciosa.”

Num evento com atletas, Bolsonaro sinalizou a intenção de recriar as pastas de Cultura, Pesca e Esporte, rebaixadas no início do governo à categoria de secretarias. Condicionou a meia-volta ao resultado da sucessão interna do Congresso. Seus preferidos são favoritos. Para a presidência da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Para o comando do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Em discurso transmitido pelas redes sociais, Bolsonaro declarou: “Se tiver um clima no Parlamento, pelo que tudo indica as duas pessoas, né, Luiz Lima, que nós temos simpatia devem se eleger, não vamos ter mais uma pauta travada, a gente pode levar muita coisa avante, quem sabe até ressurgir os ministérios, esses ministérios.”

Os arquivos do Tribunal Superior Eleitoral guardam o programa de governo esgrimido por Bolsonaro na campanha de 2018. No item “Redução de Ministérios”, lê-se: “Um número elevado de ministérios é ineficiente, não atendendo os legítimos interesses da nação. O quadro atual deve ser visto como o resultado da forma perniciosa e corrupta de se fazer política nas últimas décadas, caracterizada pelo loteamento do Estado, o popular ‘toma-lá-dá-cá’.” Anotou-se em letras maiúsculas: “O PAÍS FUNCIONARÁ MELHOR COM MENOS.”

Sob Michel Temer, havia 29 ministérios. Bolsonaro prometia reduzir para 15. Na fase de transição, subiu para 20. Ao tomar posse, enviou para o Diário Oficial um organograma com 22 ministérios. Em junho do ano passado, surgiu o 23º guichê. Recriou-se a pasta das Comunicações, entregue ao deputado Fábio Faria (PSD-RN).

Antecipando-se às críticas, Bolsonaro tenta passar uma borracha no lero-lero segundo o qual “o país funcionará melhor com menos” ministérios. Armado de argumentos desconexos, ele adornou sua incoerência com um conteúdo amazônico. “Ah, quer criar ministério de novo?”, indagou, como que mimetizando as críticas que estão por vir. “Olha o tamanho do Brasil, só a Amazônia é maior que toda a Europa Ocidental todinha.”

As palavras de Bolsonaro não foram fortuitas. Serviram para sinalizar aos deputados que o presidente leva a sério o compromisso de transformar seu matrimônio com o centrão em patrimônio. O relacionamento solidifica-se num instante em que repousam nas gavetas da presidência da Câmara 63 pedidos de impeachment.

Arthur Lira, o candidato do Planalto à sucessão de Rodrigo Maia, tornou-se favorito fazendo compras, por assim dizer, com seu próprio cartão de crédito. Fez isso no pressuposto de que o presidente pagará as faturas. Nesse jogo, a recriação de pastas como Cultura, Esporte e Pesca é um troco.

O centrão conta, por exemplo, com a volta do Ministério da Indústria e Comércio, a ser extraído de uma costela do organograma da Economia. O ministro Paulo Guedes leva o pé à porta.

Os neo-aliados de Bolsonaro dão de barato que receberão o Ministério do Bolsa Família, desalojando Onyx Lorenzoni. Esperam, de resto, acomodar apadrinhados em ministérios palacianos. Ambicionam a Secretaria de Governo (pode me chamar de Articulação Política) e a Casa Civil, ocupadas respectivamente pelos generais Luiz Eduardo Ramos e Braga Netto.

A turma do centrão avalia que Bolsonaro não ousará decepcionar seus aliados, tal como fez Dilma Rousseff. Sustentam que a ex-presidente petista cometeu dois pecados letais no seu relacionamento com o centrão. Deu-se nas pegadas da sucessão de 2014.

Reeleita, Dilma achou que seria uma boa ideia desafiar o então líder do MDB, Eduardo Cunha, que era candidato à presidência da Câmara. O Planalto imaginou que o derrotaria lançando o petista Arlindo Chinaglia. Com a Lava Jato a pino, a prepotência petista revelou-se uma ingenuidade.

Depois de prevalecer sobre Chinaglia, Cunha encostou o impeachment na jugular de Dilma. Com o governo fazendo água, a presidente recorreu ao vice Michel Temer. Converteu-o em articulador político do governo.

Valendo-se de sua ascendência sobre o MDB e o centrão, Temer chegou a recompor o consórcio governista. Entretanto, os acordos fechados pelo vice começaram a ser descumpridos. Temer devolveu a articulação à presidente. O asfalto já gritava “Fora Dilma”. A economia flertava com a ruína. E os supostos aliados do governo juntaram-se à oposição para enviar madame mais cedo para casa.

Bolsonaro elimina intermediários, terceirizando os acertos ao próprio candidato do centrão. No momento, o presidente vive a ilusão de que preside uma negociação. Se não honrar os acertos trançados ao redor da candidatura de Arthur Lira, talvez experimente a incômoda sensação de ser desgovernado pelo centrão.

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