BOLSONARO AGE PARA RETIRAR PROTAGONISMO DE DORIA NA VACINAÇÃO – JOSIAS DE SOUZA, BLOG NO UOL

Josias de Souza
Colunista do UOL

17/12/2020 05h10

Jair Bolsonaro deflagrou uma operação para assumir a liderança no processo de vacinação contra a Covid-19. A motivação é política. O presidente deseja esvaziar o protagonismo assumido pelo governador de São Paulo, João Doria.

A estratégia de Bolsonaro inclui lances que revelam a obsessão com que o presidente passou a perseguir o objetivo de apagar os holofotes atraídos por Doria. Vai abaixo, em dez lances, um relato do que ocorre nos bastidores.

  1. Bolsonaro inquietou-se com a corrida de governadores e prefeitos para adquirir a CoronaVac. Nesta quarta-feira (16), dia em que se realizou no Planalto o lançamento cenográfico de um plano nacional de imunização que já viera à luz, havia 12 estados e 1.030 prefeituras na fila de candidatos à aquisição da vacina chinesa testada e fabricada no Brasil pelo Instituto Butantan, vinculado ao governo paulista.
  2. No último final de semana, Bolsonaro autorizou o general Eduardo Pazuello, ministro da Saúde, a restabelecer um acordo com o Butantan. O mesmo acordo que Pazuello havia anunciado em 20 de outubro, numa reunião com 24 governadores, e que o presidente mandara rasgar. Prevê a aquisição pela União de 46 milhões de doses da CoronaVac, a vacina desenvolvida pelo laboratório Sinovac, da China.
  3. Depois de humilhar Pazuello, exibindo nas redes sociais um vídeo com a frase que se tornou símbolo da subserviência do general —”É simples assim: um manda, e o outro obedece”—, Bolsonaro jurara que seu governo jamais compraria a “vacina chinesa do Doria”.

O presidente deu meia-volta depois de manusear pesquisa que revelou o desejo da maioria dos brasileiros de se vacinar. Para complicar, a vacina na qual o governo federal apostou suas melhores fichas (AstraZeneca-Oxford) tropeçou na fase de testes. Com a perspectiva de atraso, subiu no telhado o sonho de Bolsonaro de levar uma vacina à vitrine antes de Doria.

  1. Na prática, o recuo do presidente representa um avanço sobre o território de Doria. Ao adquirir a produção do Butantan, o Ministério da Saúde aniquila o plano de imunização que o governador paulista anunciou para 25 de janeiro. Confirmando-se a aquisição, a vacinação dos habitantes de São Paulo ocorrerá simultaneamente com os outros estados, em calendário fixado por Brasília.
  2. Bolsonaro tomou duas precauções para não dar cartaz a Doria. Determinou que o programa nacional de vacinação seja inaugurado não com a CoronaVac, mas com a vacina da Pfizer, incluída de última hora na cesta de compras do Ministério da Saúde. A “vachina”, como os devotos de Bolsonaro se referem ao imunizante do Butantan, entraria em cena na sequência, depois das primeiras fotos e filmagens.

Em privado, o presidente mencionou inclusive a hipótese de enviar aviões da Força Aérea para apanhar vacinas na fábrica da Pfizer, em Michigan, nos Estados Unidos. De resto, Bolsonaro proibiu Pazuello de iniciar a imunização em 25 de janeiro, a data que Doria escolheu por ser o dia do aniversário da cidade de São Paulo.

  1. Na última segunda-feira (14), Pazuello telefonou, por volta de 13h, para um assessor de Doria, o ex-deputado tucano Antonio Imbassahy. Ele é o responsável por zelar pelos interesses do governo de São Paulo em Brasília. O ministro avisou a Imbassahy que mandaria para a capital paulista um de seus assessores especiais, o também ex-deputado federal Airton Cascavel.
  2. Cascavel voou para São Paulo na mesma segunda-feira. Ciceroneado por Imbassahy, foi ao Butantan. Reuniu-se por quase três horas com Dimas Covas, o diretor do instituto. Foram à mesa as cifras e os volumes negociados em outubro. A União compraria 46 milhões de doses da CoronaVac, ao preço unitário de US$ 10,30.
  3. Dimas Covas e Antonio Imbassahy reiteraram na reunião com o emissário de Pazuello que o objetivo do Butantan e do Palácio dos Bandeirante sempre foi o de incluir a CorionaVac no Programa Nacional de Imunização, que funciona adequadamente há 47 anos. O Butantan fornece algo como 65% das vacinas distribuídas via Ministério da Saúde.
  4. Antes de retornar a Brasília, o assessor de Pazuello falou por telefone com Doria. Pouco depois, o próprio ministro telefonou para o governador. Uma semana depois de um bate-boca no qual condicionara a compra da CoronaVac à existência de “demanda”, o general manteve com o desafeto do seu chefe uma longa e amistosa conversa. Nela, ficou entendido que Pazuello recuperara a “autonomia” para negociar. E que o entendimento migraria do gogó para o papel.

Na terça-feira (15), o Butantan enviou ao Ministério da Saúde um contrato com os detalhes do negócio trançado na véspera: preço, quantidade e cronograma de entrega. O dia terminou sem que Pazuello acomodasse seu jamegão no documento. Na quarta, sobreveio a solenidade do Planalto. Discursando para uma plateia que incluía vários governadores, Bolsonaro falou em “união”, “entendimento” e “paz”. E Pazuello levou a CoronaVac aos lábios. Doria não deu as caras.

  1. Terminada a cerimônia do Planalto, Pazuello encontrou-se com governadores que vieram a Brasília. Reiterou que a pasta da Saúde comprará todas as vacinas que obtiverem aprovação da Anvisa, a agência brasileira de certificação de medicamentos. Provocado, repetiu a portas fechadas o que dissera sob refletores: a CoronaVac será adquirida pela União. Exibiu cópia do contrato do Butantan.

Curiosamente, a quarta-feira terminou sem que Pazuello assinasse o contrato. Abriu-se um debate sobre a hipótese de o ministro firmar uma carta de intenção de compra. Que seria substituída pelo contrato depois que a vacina fosse avalizada pela Anvisa. A carta já foi redigida. O Butantan planeja requerer o registro da vacina na semana que vem, em 23 de dezembro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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