Bolsonaro, agora, incita desordem social – VERA MAGALHÃES, GLOBO


Não falta mais nada, aparentemente. Jair Bolsonaro, agora, incita a desordem pública em reação a restrições à pandemia adotada por governadores.

Pior: junta essa incitação a uma fala bastante obscura sobre “estado de sítio”, comparando o toque de recolher a essa medida extrema e dizendo que só a ele caberia decretá-lo. Como assim? Não é a primeira vez, aliás, que Bolsonaro faz referência aos artigos 137 e 141 da Constituição, que também aparecem em tom de ameaça em postagens de seus apoiadores sugerindo intervenção militar. –

Desde que foi decretada pandemia de covid-19, há um ano, o presidente Jair Bolsonaro:

– criticou e boicotou o isolamento social;

– criticou e boicotou o uso de máscaras;

– atacou governadores e prefeitos por adotarem medidas de distanciamento social, e tentou impedi-los de fazê-lo;

– depois que o STF o impediu de cercear ações de Estados e municípios, passou a mentir que a decisão o impedia de tomar medidas e transferia toda a responsabilidade a governadores e prefeitos;

– defendeu o uso de medicamentos comprovadamente ineficazes para o tratamento de covid-19, mandou o Exército fabricá-los, importou grande quantidade desses placebos e forçou o Ministério da Saúde a adotar um protocolo para este uso;

– promoveu atos antidemocráticos que pediam o fechamento do STF e do Congresso, inclusive no Palácio do Planalto;

– promoveu aglomerações com idosos e pessoas com comorbidades;

– boicotou a compra de vacinas e desaconselhou seu uso pela população, inventando efeitos colaterais que poderiam ser provocados por elas;

– minimizou os efeitos da covid-19, ironizou os que seguem restrições sanitárias, desdenhou das mortes e chegou a duvidar dos dados;

– demitiu dois ministros da Saúde médicos e nomeou um general para o lugar.

A lista veio de memória e certamente é bem maior que essa. Mas, agora, o presidente da República, não satisfeito, lança para seus seguidores uma clara incitação à baderna e à desordem pública, em reação a medidas duras anunciadas pelos governadores diante do colapso do sistema de saúde.

Foi nesta quinta-feira: para criticar o adversário de sempre, João Doria Jr., e até um ex-aliado, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, Bolsonaro disse que medidas são irresponsáveis e que podem provocar saques a supermercados, greves e quebra-quebra.

O bolsonarismo, como se sabe, funciona como uma cadeia de transmissão: a fala de Bolsonaro é replicada por parlamentares, pelos filhos, por influenciadores em redes sociais e nos grupos de WhatsApp.

Basta lembrar que o presidente usou seu WhatsApp para divulgar um ato contra o Judiciário em 15 de março. Depois negou que o tivesse feito. Por fim, ele foi ao tal ato, e passou a ir a todos os subsequentes, em diversas semanas, até que o STF abriu um inquérito para investigar esses atos e ele teve de moderar esse comportamento.

Não será surpresa se a fala de Bolsonaro sobre saques e tumulto deflagrar esse tipo de comportamento por parte de seus apoiadores. Ele também chegou a sugerir em uma live na primeira onda da pandemia que as pessoas invadissem hospitais de campanha para mostrar leitos vazios, e isso foi feito, inclusive tentativas de invasão por parte de parlamentares bolsonaristas.

Cabe ao STF, uma vez mais, advertir o presidente para que não cogite algo que seria um componente a mais a agravar o quadro gravíssimo que o país vive, dado o risco de que suas palavras sejam o estopim a transformar o que ele lança de forma leviana como hipótese em realidade.

Bolsonaro, agora, incita desordem social – VERA MAGALHÃES, GLOBO
Rolar para o topo