BOLSONARO AVACALHA PROCESSO DE ESCOLHA NO STF – JOSIAS DE SOUZA, BLOG DO JOSIAS


Jair Bolsonaro transformou a substituição de Celso de Mello num processo de avacalhação do modelo de escolha de um ministro do Supremo Tribunal Federal. A indicação do desembargador Kássio Marques ocorre em ambiente doméstico. Começou no palácio residencial do Alvorada, onde goles de tubaína valem mais do que títulos de currículo. E passou pelas casas de Gilmar Mendes e Dias Toffoli, onde o institucional é sorvido com gelo.

Até outro dia, Bolsonaro ornamentava com sua presença manifestações em que bolsonaristas pediam o fechamento do Supremo. Nessa fase, o presidente queria jantar a Corte. Agora, o capitão janta com Gilmar e Toffoli. Batido o martelo, levou Kássio à casa de Gilmar. Ali, obteve o aval do anfitrião, de Toffoli e de Davi Alcolumbre. No final de semana, uma visita do presidente à residência de Toffoli levou seus devotos a pendurarem no Twitter a hashtag #bolsonarotraidor.

“Eu sou um cara que gosta de unir as pessoas, que todo mundo se divirta”, disse Dias Toffoli ao jornal O Globo. “Foi uma confraternização, ninguém falou de trabalho. Não estávamos aqui para discutir assunto sério.” Entre os convidados, além de Bolsonaro, Kássio e Alcolumbre. Postaram-se defronte da televisão para assistir à vitória de 2 a 1 do Palmeiras, time do presidente, sobre o Ceará.

Caprichoso, Toffoli mandou servir aos visitantes uma refeição que orna com a conjuntura: PIZZA! Nada poderia ser mais apropriado. Acabar em pizza, como se sabe, é o eufemismo que se utiliza para definir uma investigação que resulta em nada. Ironicamente, a expressão tem origem no futebol, justamente no Palmeiras, clube da colônia italiana.

Num período em que as divergências eletrificavam a política interna do Palmeiras, dizia-se que nenhuma briga seria séria a ponto de impedir que os rivais, como bons descendentes de italianos, terminassem o dia ao redor de uma pizza. A expressão foi transposta para a política nacional por conta da impaciência dos brasileiros com os escândalos impunes.

Há muitos processos e inquéritos em curso envolvendo Bolsonaro, sua família e seus aliados do centrão. O presidente já dispõe de um ministro da Justiça que atua como advogado do bolsonarismo, inclusive nos autos. Conta com um procurador-geral sem vocação para procurar. Age para reforçar nos tribunais superiores a presença de togas com disposição para retardar processos inconvenientes e produzir sentenças convenientes.

Em resposta aos bolsonaristas que o fustigaram nas redes sociais, o presidente tratou a confraternização futebolística de Toffoli como um ato de governo: “Preciso governar. Converso com todos em Brasília. Um abraço”. Bolsonaro defendeu Kássio Marques. E postou no Facebook uma frase que vale como uma espécie de marca do Zorro na testa do substituto de Celso de Mello: “Ele está 100% alinhado comigo, por isso a ferrenha campanha para desconstruí-lo.”

Ganha uma fatia de pizza quem for capaz de responder à seguinte pergunta: O que é mais nefasto, o presidente que trata o indicado para o Supremo como um futuro prestador de serviços ou os ministros da Corte que avalizam a avacalhação participando dela ou silenciando?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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