Bolsonaro deveria explicar em uma agência do INSS a sua política de gestão pública – RANIER BRAGON – FOLHA

Apagões pipocam aqui e ali na máquina pública; não há Titanic que suporte tanta competência

A máquina pública é formada por tal engrenagem complexa e impermeável a solavancos que, digamos, mesmo que amanhã assuma a cadeira presidencial o Marinheiro Popeye, o país continuará a sua marcha. Ocorre que tudo tem limite. Lentamente, a incompetência patente, a total falta de ideia sobre o que fazer, o brancaleonismo piorado pela prepotência, o pelotão da ignorância travestido de exército da salvação, enfim, tudo isso, misturado, haveria de cobrar a devida fatura.

Jair Bolsonaro, que gosta de dar voltinhas em Brasília para comer pastéis, visitar feiras, bem que poderia aproveitar algum desses momentos em que não tem, ou não sabe, o que fazer —e eles parecem ser muitos— e dar um pulinho nas agências do INSS. Lá não vendem pastéis, mas foi em uma delas que o repórter Bernardo Caram encontrou o trabalhador rural Paulo Novais de Jesus, que disse aguardar há três meses a liberação de um auxílio-doença. Devido a isso, tem feito incursões na mendicância. “Tive que perder a vergonha de pedir comida para a família.” Ao todo, 1,3 milhão de brasileiros estão em situação similar, no rol de vítimas de apagões que pipocam aqui e ali na máquina pública que Paulo Guedes quer pôr abaixo para o bem geral da nação. 

O presidente Jair Bolsonaro – Alan Santos/PR

Além de ouvir a história dessa gente, Bolsonaro poderia aproveitar a oportunidade e explicar a eles o que não deu certo na sua promessa de só levar os melhores, os mais competentes, para a sua equipe. Guedes poderia ajudá-lo a responder essa.

Além do cenário de deus-dará no INSS, os melhores estão à frente da balbúrdia que inferniza estudantes e sucateia a educação, órgãos do meio ambiente e o programa de casas populares, que retoma as filas e diminui a cobertura do Bolsa Família, que gera panes técnicas as mais variadas e que troca políticas públicas baseadas em fatos e ciência por bênçãos do caderno da tia-avó.

Por mais resiliente que seja esse trambolho chamado máquina pública, não há Titanic que suporte por muito tempo tanta competência.

Ranier Bragon

Repórter especial em Brasília, está na Folha desde 1998. Foi correspondente em Belo Horizonte e São Luís e editor-adjunto de Poder

Bolsonaro deveria explicar em uma agência do INSS a sua política de gestão pública – RANIER BRAGON – FOLHA
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