Bolsonaro em modo de campanha – RICARDO NOBLAT, VEJA.COM

Bravatas e caça a votos

Por Ricardo Noblat – Atualizado em 30 abr 2020, 08h07 –

O então pré-candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro, aparece em um vídeo ensinando uma menina a fazer um gesto de arma com a mão  Reprodução/Twitter

Antes de se recolher ao seu quarto de dormir no Palácio da Alvorada, o presidente Jair Bolsonaro fez questão de protagonizar mais dois fatos. O primeiro: desautorizou a Advocacia Geral da União que anunciara que não recorreria da decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de suspender a posse de Alexandre Ramagem como diretor da Polícia Federal.

O segundo: em sua página no Twitter, acusou a Organização Mundial de Saúde de incentivar a masturbação e a homossexualidade de crianças. O post ficou no ar o tempo suficiente para ser copiado e distribuído pelos interessados, principalmente bolsonaristas de raiz. Mais tarde foi apagado – ou por Bolsonaro ou por seu filho Carlos.

Bravatas, só bravatas. Tão logo soube da decisão do ministro Alexandre de Moraes, o próprio Bolsonaro assinou portaria tornando sem efeito a nomeação de Ramagem para o comando da Polícia Federal. Devolveu-o à direção da Agência Brasileira de Inteligência, de onde fora removido. Portanto, não tem mais como recorrer de nada porque ele mesmo revogou a nomeação.

Por si só, o ato de apagar a mensagem ofensiva à Organização Mundial de Saúde prova que Bolsonaro só a escreveu para provocar alarido e causar polêmica. Bravata pura, do contrário não a teria suprimido. Há poucas semanas, ele editou um trecho de pronunciamento do diretor da Organização para reforçar sua posição contra o confinamento social. Pego em flagrante, recuou.

Antes do advento das redes sociais, Bolsonaro valia-se de falas bizarras para atrair a atenção dos jornalistas. Comportou-se assim como deputado durante quase 28 anos. Com o surgimento das redes, correu para elas à procura do espaço que lhe era sonegado por jornais e emissoras de televisão. Ocorre que a pandemia reforçou a confiança na mídia tradicional em detrimento das redes.

Então Bolsonaro deu meia volta. Sem desprezo às redes onde nada de braçada, empenha-se em ocupar todos os espaços possíveis na mídia que faz questão de apresentar como sua inimiga. Admita-se: está sendo bem-sucedido. O cercadinho à entrada do Palácio da Alvorada deixou de ser seu principal parque de exposição. Agora, exibe-se por toda parte e aproveita todos os momentos.

É menos o presidente que se exibe e mais o candidato à reeleição em campanha. Enquanto seus possíveis adversários em 2022 se calam ou enfrentam desafios administrativos nos Estados, Bolsonaro deixa seus desafios aos cuidados de quem possa administrá-los e se dedica a contar votos. Votos para barrar seu impeachment no Congresso. Votos para ganhar um novo mandato.

Se não lhe abreviarem o mandato, poderá sucumbir a dois inimigos de peso: a herança de mortos deixada pela passagem do coronavírus e a recessão econômica que será histórica.

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