Bolsonaro está em guerra com a humanidade – MARCELO COELHO, FOLHA

Não é só burrice: o burro normal tem medo de se contaminar

É incrível como cargos públicos e posições de poder terminam impressionando até as pessoas mais críticas.

Um chefe de Estado pode ser irresponsável, psicopata ou palhaço —sempre haverá quem veja na sandice algum tipo de estratégia sofisticada.

Fotomontagem com efeitos gráficos de Jair Bolsonaro fazendo flexão com uma Terra plana em cima dele
André Stefanini/Folhapress

Diante de um jumento, há quem ponha a mão no queixo e diga: “Hum, esperem um pouco. Burro ele não é”.

Simpatizo com essa atitude. Se, por acaso, eu encontrasse Adolf Hitler numa reunião social, sei que minha opinião a seu respeito acabaria melhorando.

Vejo-o numa rodinha de empresários e banqueiros; ele conta uma piada não especialmente preconceituosa. Todos riem. Um garçom se aproxima.

“O senhor aceita uma empadinha de palmito?” Adolf é simpático com o serviçal. “Não, agora não, obrigado.” Sua voz se torna mais íntima. “Estou tentando dar uma emagrecida, hehe.”

O garçom já está se afastando quando Hitler muda de ideia. “Ah, quer saber?” Ele pega a empadinha de palmito, e sorri. “Começo o regime amanhã!”

Nada mais banal. Não duvido: Hitler deve ter sido capaz de banalidades, entre um genocídio e outro.
Pego eu mesmo uma empadinha. “Puxa, afinal o Hitler não é tão ruim como dizem.”

Eu esperava um rottweiler de uniforme, latindo e babando sem parar. Encontro um ser humano. Ele não está em surto psicótico o tempo inteiro. Tem atitudes normais com relação a dietas, garçons e empadinhas.

Passo ao presidente Bolsonaro. Ele foi à TV para criticar as medidas de isolamento contra o coronavírus, adotadas no mundo inteiro. Perdeu muito apoio com isso, claro.

Há quem veja em sua loucura algum maquiavelismo político. Vai saber. Bolsonaro terá condições, no futuro, de culpar outras autoridades pela queda no PIB. Quando a crise passar, sairia fortalecido como um defensor do crescimento econômico.

Minha impressão é diferente. Se os hospitais explodirem e o número de mortes for o que se imagina, será difícil para Bolsonaro negar responsabilidade direta pela catástrofe.

Não há cálculo, eu acho. Ele simplesmente acredita no que diz. Acredita, por exemplo, que tem excelente condição física (a facada foi de somenos) e que a maioria das pessoas terá, no máximo, os sintomas de uma “gripezinha”.

Como entender as origens dessa convicção? Não é só burrice. O burro normal tem medo de se contaminar.

As opiniões de Bolsonaro e de seus gurus se articulam num sistema coerente. A tese da “gripezinha” combina com a negação do aquecimento global, com a ideia da Terra plana, com a xenofobia racista, com a defesa da liberação das armas de fogo.

Todos esses delírios têm pontos em comum. Em primeiro lugar, há uma espécie de repulsa à própria ideia de que a humanidade é uma coisa só. Assim, os direitos humanos não valem para todos os humanos —só para quem for decente e honesto.

Reconhecer a crise climática é algo que pode unir franceses e mexicanos, heterossexuais e homossexuais, crianças escandinavas e idosos do Zambeze. É uma causa universal demais; irmana o mundo inteiro —e é isso o que o extremista de direita não consegue aceitar.

Ele encontra, nessas teses delirantes, o passaporte imaginário para um mundo em que ele é melhor e sabe mais do que os outros.

Proibir armas de fogo, assim como recomendar o isolamento na pandemia, é sobretudo uma atitude de bom senso.

Mas o extremista foge do bom senso, mesmo que a custo do ridículo, da ilogicidade, do terraplanismo. O animal quer fugir da manada, sem perder a sua animalidade jamais.

Nesse ponto, sua orgulhosa irracionalidade se dá bem com o liberalismo econômico. Cada um por si: nada mais certo, pensa ele. Tenho direito a comprar armas de fogo, porque sei como usá-las. Além disso, não sou um vagabundo. Logicamente, sou contra aumentar os gastos estatais, porque no Estado só existem vagabundos. Digo mais: quem defende gastos estatais é vagabundo também.

Enquanto diz isso, o neoliberal enriquece sem esforço no mercado financeiro. Fazendo paródia de um candidato de direita nas eleições de 2018, o humorista Marcelo Adnet foi ao ponto —o empresário riquíssimo de fato acredita que carrega nas costas 99% da população, tendo ainda de aguentar a inveja de tantos parasitas.

O extremista de direita despreza o resto da humanidade. Afinal de contas, é um atleta. Um atirador de elite. Um filósofo. Um miliciano. Um gênio. Um torturador, com muita honra.

Quanto à ciência, à responsabilidade política, à democracia, à humanidade, que fiquem para os imbecis.

Marcelo Coelho

Membro do Conselho Editorial da Folha, autor dos romances “Jantando com Melvin” e “Noturno”. É mestre em sociologia pela USP.

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