Bolsonaro exercita seu eterno sonho de dar uma quartelada – RANIER BRAGON, FOLHA

Tanques não podem mais escrever a história política deste país

5.mai.2020 à 0h00

A paciência de Jair Bolsonaro acabou, ele está em seu limite, tem ao seu lado as Forças Armadas e fará cumprir, a qualquer preço, a sua interpretação da Constituição.

As palavras proferidas na mais recente algazarra golpista, no domingo (3), têm como objetivo intimidar não só Alexandre de Moraes, que dificultou sua intenção de interferir em investigações da PF, mas qualquer ministro do STF que possa lhe causar embaraços. Como Celso de Mello, que comanda a apuração das acusações do ex-ministro Sergio Moro.

Como suporte às bravatas, o presidente ameaça mover o sonho de toda uma vida de delinquência sem punição: uma quartelada a seu favor.

A ameaça de ruptura institucional foi coroada no domingo pela violência de covardes que se escoram na proteção dos bandos para atacar alvos pelas costas. Os presidentes do próprio Supremo, Dias Toffoli, e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), acoelharam-se, mudos.

Como informou a colunista Mônica Bergamo, Toffoli até se irritou, mas com a decisão dos colegas. Davi foi ao Planalto nesta segunda, mas apenas para exercitar a sua alma de eterno baixo-clero e lengalengar a necessidade de harmonia.

E de pusilanimidade em pusilanimidade a vergonha vai sendo escrita.

Qualquer ministro que se acovarde neste momento não merece a toga que veste. Ministros do STF não são deuses. Para conter eventuais erros e abusos, estão lá o colegiado, a reação abalizada da sociedade civil e, até, o impeachment. Jamais a intimidação ou a desobediência.

Qualquer militar também não merece a farda que veste se der suporte a ameaças de ruptura feitas por um descapacitado que demonstra não ter condições nem de ser síndico do Vivendas da Barra. Militares são agentes do Estado brasileiro, não atores políticos ou capachos de tiranetes. Honrem a história de gente como o marechal Henrique Teixeira Lott. Tanques não podem mais escrever a história política deste país, por mais que celerados assim o desejem.

Ranier Bragon

Repórter especial em Brasília, está na Folha desde 1998. Foi correspondente em Belo Horizonte e São Luís e editor-adjunto de Poder.

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