BOLSONARO INJETA ESCÁRNIO NO CASO DA RACHADINHA – JOSIAS DE SOUZA, BLOG NO UOL

A Justiça, como se sabe, é cega. Mas certos magistrados desenvolvem requintados mecanismos de audição. Tome-se o caso do desembargador Bernardo Garcez. É corregedor-geral de Justiça do Rio de Janeiro. Integra a Turma Especial do Tribunal de Justiça do estado. É esse colegiado que julgará o processo sobre o caso da rachadinha, estrelado por Flávio Bolsonaro. Na última sexta-feira, o doutor e suas orelhas estiveram com o pai do investigado. Sem alarde, permaneceram com Jair Bolsonaro por duas horas, no Palácio do Planalto.

O encontro com o desembargador foi solicitado pelo presidente da República. Sobre o que conversaram? O Planalto não informa. O Tribunal de Justiça do Rio alega que o colóquio foi sobre “assuntos gerais de interesse da administração pública.” Hummmm… Nada relacionado com processos judiciais. Então, tá! Mencionaram-se dois exemplos: 1) Os desafios do Judiciário durante a pandemia; 2) A participação do chefe da Corregedoria-Geral de Justiça do Rio num comitê de modernização de ambiente de negócios.

Bolsonaro dá as costas para o coronavírus sob o falso argumento de que foi chutado para escanteio pelo Supremo. Recusa-se a instituir uma coordenação nacional para a pandemia. De repente, posiciona-se junto à bandeira do córner para recolocar a bola em jogo. Preocupa-se agora com os “desafios do Judiciário” na guerra contra o vírus. Poderia reunir-se com Luiz Fux, presidente da Suprema Corte. Mas prefere prestigiar o doutor Bernardo Garcez que, por acaso, participará do julgamento do Zero Um. Curioso, muito curioso, curiosíssimo.

Não fosse o faro de Bolsonaro, ninguém imaginaria, de resto, que o talento para a “modernização do ambiente de negócios” estivesse escondido justamente na Turma Especial do Tribunal de Justiça do Rio, em meio às folhas do processo que enroscou Flávio Bolsonaro num esquema que resultou num desvio estimado em R$ 6 milhões. O presidente não se cansa de surpreender o país. Revela agora uma insuspeitada habilidade para reconhecer méritos excepcionais.

Bem verdade que a aproximação de Bolsonaro com Bernardo Garcez deixa o desembargador em constrangedora posição. Na hora de julgar o primogênito, se exibir posições favoráveis ao investigado, o magistrado não se livrará dos comentários maledicentes. De nada adiantará dizer que decidiu conforme suas convicções. Existe algo mais suspeito do que uma conduta absolutamente irrepreensível?

Sob Bolsonaro, o escárnio vai adquirindo na Presidência da República uma doce, uma persuasiva, uma admirável naturalidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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