Bolsonaro manda recado a Guedes: ‘qual o problema?’ – MIRIAM LEITÃO, O GLOBO

NA CBN

O recado agora foi do presidente para o ministro Paulo Guedes. Jair Bolsonaro disse na quinta-feira que existe mesmo a discussão para furar o teto de gastos. “Qual o problema?”, perguntou. A fala revoga a defesa do teto que ele mesmo tinha feito no encontro com ministros e parlamentares, na quarta-feira. Bolsonaro disse que a discussão foi vazada, outra estocada em Guedes, que havia contado em entrevista na terça-feira que o presidente recebe conselho de alguns ministros para furar o teto. Naquela fala, foi Guedes quem deu recados. Disse que o aumento de gastos é o caminho para o crime de responsabilidade, que pode levar a um impeachment.       

O presidente até justificou os pedidos que recebe para aumentar os gastos. Cada vez mais falta recurso para os investimentos, disse na live no Facebook. O piso das despesas obrigatórias está subindo, e pressiona o teto. Bolsonaro contou que o ministro Tarcísio de Freitas pede dinheiro para estradas, e defendeu mais investimento nessas obras. O presidente tratou como “nosso querido” o ministro Rogério Marinho, do Desenvolvimento Regional. Marinho é o principal desafeto de Guedes na Esplanada. O presidente conta que Marinho defendeu o investimento em abastecimento de água, e sugeriu que se pode usar recursos para a crise da pandemia porque a água é parte do combate ao coronavírus.  

Bolsonaro também citou o caso do Ministério da Defesa, que segundo ele terá o menor investimento da história. A pasta tem cinco projetos essenciais, na visão do presidente, que vão desde a construção de submarinos à compra de caças.   

O presidente está sensível a todos os argumentos por mais gastos. Ele contou ainda sobre a ministra Damares Alves, que teria o “pior Ministério” e sempre pede mais dinheiro para o presidente.    

O discurso de Bolsonaro é o oposto do que ele havia falado sobre o teto um dia antes. A fala da quinta-feira se parece muito com a declaração de setembro de 2019, quando o presidente defendeu flexibilizar o teto de gastos porque seria uma “questão matemática”. Caso contrário, disse, teria que apagar as luzes dos quartéis.   

Jair Bolsonaro não tem nenhum compromisso com o teto de gastos ou com as privatizações. Ele só tem ouvidos para os gastadores. Guedes trava uma briga pública contra essa visão. Ele busca apoio externo de economistas que também sabem para onde o descontrole fiscal leva o país, com alta da inflação e da despesa com juros, prejudicando os mais pobres. Mas o presidente adota uma linha parecida com a da ex-presidente Dilma Rousseff. Ele argumenta que os pedidos de gastos são para melhorar a vida das pessoas. A ex-presidente dizia que pedalou para cobrir os gastos com o Bolsa Família. Não se pode driblar as regras fiscais, é preciso escolher as despesas mais importantes. O teto existe para disciplinar as escolhas do governo. Fora disso, resta aumentar os impostos ou explodir a dívida pública.    

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