BOLSONARO NÃO GOSTA DE FALAR DE MORTES – JOSIAS DE SOUZA, BLOG DO JOSIAS

Jair Bolsonaro gosta de falar. Mas nem sempre aprecia ouvir. Ainda não se deu conta de que, numa democracia, o direito do governante de ser ouvido não inclui automaticamente o direito de ser levado a sério. O presidente se irritou com uma suposta ex-apoiadora que foi ao Alvorada para acusá-lo de traidor por negligenciar a crise sanitária. Ficou entendido, uma vez mais, que Bolsonaro escolheu viver numa democracia com limites bem definidos.

O regime democrático do presidente existe apenas nas redes sociais, ao pé da rampa do Planalto, e no cercadinho do Alvorada. Nas redes, Bolsonaro bloqueia quem ousa questioná-lo. Na rampa, só admite manifestantes que o chamam de “mito”. No cercadinho, manda calar a boca os jornalistas que fazem perguntas incômodas e expulsa quem ousa lembrar sua omissão na pandemia.

O problema é que a democracia real começa a invadir a bolha do presidente. Alega-se que houve armação. Mas o que espanta é a aversão do presidente ao contraditório. O “sai daqui” que Bolsonaro disse à senhora que o admoestou no cercadinho do Alvorada é irmão gêmeo do “e daí?”, pergunta que o presidente fez a um repórter que o questionou sobre a escalada dos mortos. A diferença é que, entre uma reação e outra, o número de vítimas do vírus aumentou. A contabilidade já roça os 40 mil corpos.

É difícil enxergar a olho nu traços de racionalidade na forma como Bolsonaro lida com as crises que ele mesmo cria. No caso da crise sanitária, a estratégia de terceirizar as responsabilidades não tem lógica. O lógico seria o presidente dividir responsabilidades com prefeitos e governadores, unificando o país. Bolsonaro se comporta mais ou menos como o sujeito que salta do décimo andar e, ao passar pelo oitavo andar, afirma, aliviado: “Até aqui, tudo bem.” Não está nada bem. Bolsonaro logo perceberá que, num regime presidencialista, a crise costuma ter a cara do presidente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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