Bolsonaro produz sua pior crise e fica encurralado – MIRIAM LEITÃO, O GLOBO, RJ

Bolsonaro produz sua pior crise e fica encurralado

Por Míriam Leitão24/04/2020 • 13:42

O ministro Sergio Moro, ao sair, jogou uma bomba no colo do presidente. Revelou que Bolsonaro quer receber relatórios e dossiês da Polícia Federal. Ele quer que a instituição sirva a ele. É uma acusação tão grave que deixa o presidente encurralado. Tem que ser analisada pelos juristas brasileiros porque pode significar crime. Vale lembrar do caso conhecido na política americana, o escândalo do Watergate, que levou à saída do presidente Richard Nixon. O escândalo era exatamente sobre o uso da máquina de investigação do país para o interesse do presidente.  

Acabou o governo Bolsonaro, da maneira como o conhecemos e isso é que está refletindo os indicadores do mercado financeiro. O aumento enorme da incerteza a partir da saída do ministro Sergio Moro e a forma como se deu. Em uma semana, o governo perdeu um pilar, que é Moro, e enfraqueceu outro, que é o ministro Paulo Guedes. Além da queda de Luiz Henrique Mandetta na semana passada. 

O diretor da Abin pode assumir a Polícia Federal, mas já se sabe o que o presidente quer que ele faça: o que o PT nunca pediu à PF, como disse Moro duas vezes em seu pronunciamento, que deixe o presidente interferir politicamente na instituição.

Moro deixou claro que o presidente quer controlar a PF para seus próprios interesses. O presidente tem filhos e outras pessoas próximas na mira de investigações.  

Há a investigação sobre as fake news, que o Supremo iniciou. Mais recentemente, tem a investigação sobre os organizadores da manifestação contra a Constituição e a democracia, que são próximos do presidente. E ainda tem as investigações sobre o gabinete de Flavio Bolsonaro, no Rio. 

Bolsonaro terá que reorganizar o governo a partir de agora. Fará isso com a popularidade em baixa e em meio à uma pandemia, momento no qual ele próprio criou os principais problemas para seu governo.  

Também esta semana ele tentou enfraquecer Paulo Guedes. Há um nível diferente de gravidade. Ainda não houve um desfecho. Mas o presidente mandou sinais de que encontrará um caminho econômico, à moda militar, diferente do que imagina o ministro Paulo Guedes.

Integrantes da equipe disseram que se o caminho for esse a economia ficará sem âncora. Depois da pandemia, será preciso retomar a bandeira de reorganização das contas públicas. É para reconstruir o futuro. Mas se a visão for estatista, como tem os ministros militares, será o oposto do que o ministro Guedes foi fazer no governo. O resultado será juros mais alto e inflação mais alta.

No mercado financeiro, o nervosismo é porque um pilar caiu e outro está enfraquecido. O projeto de reequilibrar as contas públicas não pode ser abandonado. Esse é o risco que os investidores estão calculando.  

Se isso de fato acontecer, Bolsonaro confirmará o que os que cobrem a economia já sabiam. Ele nunca foi liberal.

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