Bolsonaro risca o fósforo e toca harpa – BERNARDO MELLO FRANCO, O GLOBO, RJ

UM INCENDIÁRIO NA PANDEMIA

Jair Bolsonaro na chegada ao Palácio da Alvorada

Jair Bolsonaro na chegada ao Palácio da Alvorada | Ueslei Marcelino/Reuters

Há dez dias, a revista britânica “The Economist” chamou o presidente do Brasil de “BolsoNero”. O apelido resume o espanto global com o homem que governa o maior país da América Latina. Enquanto o mundo faz um esforço de guerra contra o coronavírus, o capitão insiste em tratar a pandemia como uma “gripezinha”, a ser curada com jejum, reza e declarações amalucadas.

Ontem Bolsonaro indicou que assumiria de vez o papel de piromaníaco. Ele riscou o fósforo no início da tarde, ao comunicar aliados que pretendia demitir o ministro da Saúde. Quando os bombeiros conseguiram conter o incêndio, o presidente já tocava harpa diante das labaredas.

Mandar Luiz Henrique Mandetta para casa significaria atear fogo às próprias vestes. Embora Bolsonaro o veja como ameaça, o ministro é quem ainda empresta alguma credibilidade a seu governo. Numa equipe repleta de aloprados e bajuladores, ele se destaca pela serenidade e pelo apego à ciência.

Na comparação com o chefe, o ex-deputado pantaneiro ganhou porte de estadista. Pesquisas mostram que ele já se tornou mais popular que o presidente. Ontem a notícia de sua possível demissão interrompeu a alta da Bolsa, freou a queda do dólar e antecipou o horário do panelaço.

Ao jogar Mandetta na fogueira, Bolsonaro não arrisca só a popularidade. O ministro costurou uma ampla rede de apoio, que une Congresso, Judiciário e setores do governo e da sociedade. Uma demissão humilhante teria potencial para mobilizar essas forças contra o Planalto. No limite, poderia custar o fim antecipado do mandato presidencial.

Para azar do capitão, a permanência do ministro não estanca sua sangria. Aos olhos dos políticos, Bolsonaro terminou o dia ainda mais esvaziado. Ele virou um presidente que não preside: ameaça demitir e não demite; anuncia que não tem medo de usar a caneta e refuga diante do papel.

Ainda há quem se anime a dançar ao som desta música. No domingo, o ministro da Educação voltou a ofender a China com um tuíte racista. Além de ser o maior parceiro comercial do Brasil, o país produz mais de 90% dos equipamentos que faltam aos hospitais. A irresponsabilidade de Bolsonaro e sua turma não produz apenas tumulto e vergonha. Também põe em risco as vidas dos brasileiros. 

MEU COMENTÁRIO:

V. que me lê, v. que votou no Bolsonaro, mas não é um fanático e que aceita pelo menos discutir o tema, olhe bem para a foto que ilustra este post.

O que v. vê nela, um homem normal, equilibrado, apto a tomar as melhores decisões no cargo que ocupa, ou alguém desvairado, incontido, incapaz de deter o próprio impulso destrutivo, enfim, um perigo?

Ele não vai mudar, por que é de sua natureza ser assim. Significa que o país verá outras imprudências absurdas, outros casos criados a partir do nada, de um pai que é refém do filho que ele criou à sua imagem, e a todos nos sujeitará, até o fim de seu mandato.

Será que v. aguenta? Será que os milicos que ontem conseguiram demovê-lo de mais uma insania, tolerarão? Será que o país aguenta?


Bolsonaro risca o fósforo e toca harpa – BERNARDO MELLO FRANCO, O GLOBO, RJ
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