Bolsonaro se cerca de quem tope seguir suas ordens, sejam quais forem – VERA MAGALHÃES, GLOBO


CONVULSÃO MINISTERIAL

A capacidade de o governo Jair Bolsonaro produzir fatos e decisões anômalas, muitas num único dia, parece ter turvado a capacidade das instituições e até a nossa, da imprensa, de chamar as coisas pelos nomes que elas têm. O que se deu nesta segunda-feira não é uma reforma. É uma convulsão ministerial.

Bolsonaro foi forçado pelo “sistema” a tirar um de seus soldados ideológicos mais devotados, Ernesto Araújo. Esse tipo de decisão, no bolsonarismo, é sempre precedida e seguida de um berreiro dos radicais mais espumantes.

Antes da queda inevitável do templário do Itamaraty, vieram o gesto de Filipe G. Martins no Senado, os “conselhos” do guru Olavo de Carvalho para a radicalização e a tão grave quanto impune ação coordenada de Eduardo Bolsonaro e deputados e assessores sob seu comando (inclusive o ministro Ricardo Salles) para jogar lenha na fogueira da sublevação das polícias militares transformando em “herói” e “mártir” um soldado da PM da Bahia morto por seus pares depois de atirar contra eles com um fuzil!

Como se não fossem fatos de extrema gravidade para um único dia, a eles se seguiram trocas em série de ministros. Atenção: reforma ministerial se dá quando um presidente planeja uma mudança de rumos em seu governo, premido que seja por alguma circunstância, mas com um mínimo de método e premeditação.

Bolsonaro agiu premido pela paranoia de que querem derrubá-lo e de que ele precisa ter a seu lado pessoas de sua extrema confiança caso tentem fazê-lo. É disso que se trata.

Depois de entregar a cabeça de Araújo ele olhou para a Defesa e para a Advocacia Geral da União, duas das estruturas das quais pode precisar se cercar caso ceda às ameaças que faz um dia sim, outro também, e ao clamor dos seus malucos de plantão, para tentar saídas golpistas como um estado de sítio ou estado de defesa.

Fernando Azevedo já deixou claro em várias circunstâncias que não aceitaria embarcar as Forças Armadas nesta aventura. João Levi, da AGU, não chancelou a peça amalucada com que Bolsonaro foi ao Supremo para, em nome próprio, tentar sustar medidas de distanciamento social dos governadores, e pela qual levou um sabão de Marco Aurélio Mello.

Viraram, ato contínuo, entraves à ideia bolsonarista de que quem está em seu governo tem de estar disposto a endossar todas as suas maluquices. Já foram alvo dessa sanha ministros como Sérgio Moro, Luiz Mandetta, Nelson Teich e Santos Cruz, para ficar só em alguns.

O resto é remanejamento de peças, com dois sentidos: assentar aqueles em que ele confia em postos-chave (Braga Netto na Defesa, Ramos na Casa Civil e Anderson Tôrres na Justiça), com esse fim de blindagem, e dar migalhas ao Centrão na expectativa de ter uma trégua com o Congresso. Daí vem a nomeação de Flávia Arruda (PL-DF) para a articulação política. Trata-se de uma deputada inexpressiva, que vai apenas cumprir o papel de emissária do presidente da Câmara, Arthur Lira. Ou seja: vai durar no cargo enquanto Lira e o Centrão estiverem dispostos a conviver com Bolsonaro. Vai dançar tão logo decidam atirá-lo ao mar.

E aqui se volta a algo que ficou em segundo plano diante da convulsão no governo: a pandemia, minha gente. Não é como se o país tivesse subitamente superado a marca de milhares de mortes diárias e colapso hospitalar. Pelo contrário.

Então temos de sair da dimensão paralela em que opera o bolsonarismo fanático, para a qual o presidente levou os jornalistas e a classe política nesta segunda-feira, e regressar à cobertura da inépcia governamental no trato da emergência sanitária. Continuamos sem vacinas e sem coordenação nacional de algo que evite a propagação do vírus na velocidade atual.

A “reforma” de hoje nem esbarra nessas urgências. Então não vai estancar a sangria de popularidade de Bolsonaro (pelo contrário) nem garantir que o Centrão permaneça nesse cargueiro encalhado.

Bolsonaro se cerca de quem tope seguir suas ordens, sejam quais forem – VERA MAGALHÃES, GLOBO
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