Bolsonaro subestima escândalo dos CACs envolvidos com crimes – MIRIAM LEITÃO, GLOBO RJ

Bolsonaro subestima escândalo dos CACs envolvidos com crimes
Por Míriam Leitão


O presidente Jair Bolsonaro tentou minimizar a grave denúncia de “O Globo” de ontem, de que os clubes de tiro têm abrigado bandidos, em vez de fazer o que se espera de um presidente, que é informar o que será feito para impedir esses casos. E muito ruim também foi a resposta que o Exército deu. Vou explicar do começo.


A manchete do Globo, edição de domingo, sobre a ligação entre integrantes dos clubes de Caçadores, Atiradores e Colecionadores é estarrecedora. A reportagem é de Rafael Soares e conta que num levantamento feito nos tribunais de Justiça de todo o país encontrou bandidos envolvidos em milícia, tráfico de drogas e grupos de extermínio que compram armas legalmente por serem do CACs e inclusive com licença emitida pelo Exército.

A reportagem começa com o repórter contando uma história. No início do ano passado, a milícia invadiu a favela do Quitungo, na Zona Norte do Rio, e passou a extorquir moradores locais. Cobrando taxas. Os comerciantes então denunciaram o caso à Polícia Civil e contaram o local da cobrança. A Polícia montou o cerco, no dia 15 de abril, e pegou o grupo. Dois estavam com pistolas na cintura. Marcelo Orlandino, o chefe do grupo e Wallace Cesar Teixeira. Aí os dois bandidos disseram que compraram as armas legalmente e tinham registro de atiradores desportivos emitido pelo Exército brasileiro, porque integravam a categoria dos CACs ( Caçadores, Atiradores e Colecionadores).

Não foi um caso isolado. “O Globo” fez então um levantamento nos tribunais de justiça do país e identificou 25 casos em que integrantes dos CACs condenados por crimes como milícias, tráfico de drogas, grupos de extermínio e fornecedores de armas para assalto a bancos e sequestros, e fornecedores de armas para dentro de presídio. Todos puderam comprar armas legalmente e circular com elas. A maioria obteve armas legais no atual governo.
Bolsonaro, no twitter, disse que 25 é pouco porque são 600 mil CACs, seria, segundo o presidente, 0,00083%. Ora, 25 que um repórter conseguiu levantar penosamente pesquisando na Justiça. E encontrou casos em nove estados.


Há três semanas o “colecionador” Vitor Furtado Rebollal Lopez, com o apelido de Bala 40, foi preso em Goiânia com 11 mil balas de fuzis. Na casa dele no Rio ele tinha 54 armas, entre elas 26 fuzis. Ele era fornecedor de traficante.
O governo Bolsonaro tem ampliado todas as possibilidades de acesso a armas por parte desses grupos. Por decreto, o presidente permitiu que quem é desses clubes de tiro possam ter 60 armas. Outras iniciativas desse governo permitem que eles tenham também porte livre de arma com munição dentro. E mais, cria dificuldades de acesso aos bancos de dados com registros sobre eles.


O jornal conseguiu os nomes de vários desses supostos colecionadores, atiradores e caçadores. O CAC já é falso. Colecionador de qualquer coisa compra objetos antigos e não novos de última geração, o Brasil proíbe a caça de animal silvestre. Vão caçar o que?
Quem leu a reportagem precisa refletir sobre o perigo que o Brasil está vivendo de fortalecimento de milícias e de grupos de traficantes, legalmente, atrás da capa de legalidade desses clubes de tiro. O presidente e seus filhos são frequentadores, incentivadores desses clubes. O chefão da maior facção do tráfico em São Paulo virou CAC.


E o Exército no meio de todos esses bandidos, dando licença até para condenado na Justiça? Bom, o Exército foi procurado pelo jornal com uma pergunta específica: Essas pessoas identificadas na reportagem, condenadas ou investigadas, tiveram suas licenças suspensas? O Exército respondeu que esse dado era sigiloso e que só pode passar às autoridades competentes. Então o Exército dá livremente a licença para o acesso às armas e a sociedade não pode saber se, caso sejam bandidos, tiveram suas licenças suspensas. É o caso de uma gravidade enorme.

O gerente do Sou da Paz, Bruno Langeani, disse que antes o abastecimento do crime vinha do tráfico de armas ou desvio das forças de segurança. Formas mais difíceis. Agora com a liberalidade atual eles podem comprar armas com moeda nacional, e receber em casa. E além disso têm a aprovação do Exército brasileiro.

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