BOLSONARO VÊ MOURÃO COMO PRETENDENTE AO TRONO – JOSIAS DE SOUZA, UOL

Bolsonaro voltou a se queixar de Hamilton Mourão em privado. Irrita-se com o hábito do vice de conversar com repórteres. Teve uma recaída porque Mourão defendeu o papel de governadores e prefeitos na formulação de medidas restritivas contra o coronavírus.

Quem ouviu Bolsonaro ficou com a impressão de que o presidente, trancado em seus rancores, dá asas a uma teoria conspiratória. Ele fala como se suspeitasse que Mourão está se insinuando à cúpula do Congresso e à “turma do fique em casa” como um pretendente ao trono.

Na entrevista que aborreceu Bolsonaro, Mourão declarou três obviedades:

1) O número de mortos por Covid “ultrapassou o limite do bom senso”;

2) As “medidas restritivas têm que ficar a cargo dos governadores e prefeitos, que cada um sabe como está a situação na sua área”;

3) “O governo federal tem que dar o apoio necessário, não digo no caso dessas medidas, mas o apoio do governo é em termos de recursos financeiros, de medidas na área econômica como foram tomadas no ano passado, no sentido de minorar a situação do restante da população.”

As palavras de Mourão soaram dois dias depois de o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo, ter rejeitado uma ação de Bolsonaro contra medidas de restrição adotadas pelos governos do Distrito Federal, Bahia e Rio Grande do Sul.

Na véspera, o presidente da Câmara, Arthur Lira, discursara em plenário sobre os erros cometidos no enfrentamento da pandemia. Disse que acendeu o “sinal amarelo”. Deixou no ar a hipótese de lançar mão de remédios “amargos”. Alguns deles “fatais”.

Nas pegadas da fala de Mourão, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), declarou ao jornal Valor Econômico: “Não tenho nenhuma dúvida de que o vice-presidente teria melhores condições de liderar o país neste momento. Não que eu concorde com seu ideário, sua visão política, mas ele teria a capacidade de dialogar em termos razoáveis. Sou testemunha disso.”

Para Dino, Mourão “tem a capacidade de ouvir, elaborar, refletir e muito mais capacidade cognitiva e devoção ao trabalho. Ele teria pelo menos uma agenda de trabalho, de reuniões, para ouvir as pessoas. Seria uma mudança profunda.”

O governador maranhense arrematou: “Jamais votaria no vice para ser presidente, mas comparando com Bolsonaro seria quase a distinção entre civilização e barbárie.”

É contra esse pano de fundo que Bolsonaro coloca em dúvida a fidelidade de Mourão. Do modo como se expressa, o capitão parece suspeitar que o general que escolheu para parceiro entrou naquela fase do casamento em que um dos cônjuges acredita que a felicidade conjugal só é possível a três.

Em agosto de 2018, o deputado Eduardo Bolsonaro exalava otimismo com a decisão do seu pai de converter Mourão em companheiro de chapa. “Sempre aconselhei o meu pai: tem que botar um cara faca na caveira pra ser vice. Tem que ser alguém que não compense correr atrás de um impeachment.”

Habituado a fazer política na base do tranco, faltou ao Zero Três a sabedoria de Magalhães Pinto, raposa da fauna mineira: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou.”

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