Brasil acima de tudo: mortes, incêndios, mentiras – MARCELO LEITE, FOLHA


Negacionismo, doença infantil do nacionalismo, minimiza Covid-19 e queimadas

Na manhã de sábado contavam-se oito casos de Covid-19 entre as autoridades que compareceram à posse do ministro Luiz Fux na presidência do Supremo Tribunal Federal, inclusive o próprio.

O evento superdisseminador de coronavírus atesta o descaso da elite brasileira com uma pandemia que se avizinha de 1 milhão de mortos.

As mortes da pandemia, no país, empilhavam-se então na cifra subestimada de 135.793. Os infectados pelo vírus Sars-CoV-2 eram 4.495.183, gente bastante para quase encher uma Noruega e para bater os EUA recordistas de casos na proporção de contaminados por habitantes.

De resto, o Brasil tem 3% da população mundial e 14% das mortes por Covid-19.

No mesmo sábado, o periódico britânico The Lancet publicou carta dos médicos brasileiros Mauro Pontes e Julio Pereira Lima criticando editorial da revista que condenava Jair Bolsonaro por desencorajar o distanciamento social —coisa de fracos, repetiu o presidente na sexta-feira (18), em Mato Grosso, depois de seu avião arremeter durante pouso por causa da fumaça de queimadas.

Pontes e Pereira Lima pediam a cabeça do editor da revista, Richard Horton, e diziam que dados ajustados pela população mostrariam situação da Covid-19 pior no Reino Unido do que no Brasil. Pontificaram: “The Lancet deveria criticar seu próprio país antes de criticar o nosso”.

Os autores da carta podem até ter estado certos no dia em que escreveram, mas foram vítimas do descontrole da epidemia em seu país. As infecções não pararam por aqui.

Na data da publicação da missiva, o Brasil tinha 64,1 mortes por 100 mil habitantes e 21,2 casos por milhão. O Reino Unido estava em situação bem melhor, com 62,4 mortes/100 mil e 5,8 casos/milhão.

Até a sexta-feira (18), acumulavam-se desde o início do ano 15.894 focos de incêndio no Pantanal (o nome diz tudo sobre a maior planície inundável do mundo). Como o bioma tem no Brasil pouco mais de 150 mil km², isso dá uma queimada a cada 10 km².

Na Amazônia, maior floresta chuvosa do planeta, eram 69.527 os focos de calor registrados desde janeiro pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) por meio de sensores em satélites. Um incêndio a cada 100 km², num território que corresponde à metade da área do Brasil e que o brasileiro médio considera despovoado.

E a Califórnia, também não está queimando? –retrucarão os convictos de uma conspiração internacional contra o Brasil.

Nos Estados Unidos, o presidente republicano Donald Trump responsabiliza governadores democratas da Costa Oeste pelos incêndios. Para não ter de reconhecer o papel decisivo do aquecimento global na tragédia, acusa serviços florestais dos estados de não manter as matas livres de detritos inflamáveis.

Aqui, Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, incensou o “boi bombeiro”: a perseguição ao gado solto na natureza, disse, estaria impedindo os bichos de pastar e acumulando capim seco. Culpou normas ambientais contra queimadas preventivas, que também estariam aumentando biomassa ressecada no solo.

O ministro general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, falando do alto de sua autoridade como comandante da ação na favela haitiana Cité Soleil, em 2005, na qual se dispararam 22 mil tiros em sete horas, desta vez partiu para cima dos índios daqui. Escreveu num tuíte:

“A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil [Apib] está por trás do site defundbolsonaro.org, cujos objetivos são publicar fake news contra o Brasil; imputar crimes ambientais ao presidente da República; e apoiar campanhas internacionais, em prol de um boicote mundial contra produtos brasileiros. A administração da organização é de brasileiros filiados a partidos de esquerda.”

Patriotismo é o último refúgio dos canalhas, disse o inglês Samuel Johnson no final do século 18. O Brasil do século 21 atualiza a máxima agregando mentira, desumanidade, cegueira, dissimulação e covardia à canalhice.​

Marcelo Leite
Jornalista especializado em ciência e ambiente, autor de “Ciência – Use com Cuidado”.

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