Brasil envergonhado – LEANDRO COLON – FSP


O país da casa sem banheiro de Antonete deveria priorizar o acesso ao saneamento básico

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BRASÍLIA
O Brasil precisa ter mais vergonha do Brasil. Vergonha dos governos federais e estaduais, do Poder Legislativo e dos lobbies público e privado que deram sua parcela de culpa para o cenário tenebroso do saneamento básico no país.

Desde a última quarta-feira (9), a Folha tem publicado uma série de reportagens sobre o tema. Os dados e as histórias contadas são o retrato de um Brasil esquecido, atrasado, elitista e abandonado pelo estado.

Cerca de 100 milhões de brasileiros, quase metade da população, não têm acesso a coleta e tratamento de esgoto. E 35 milhões vivem sem rede de abastecimento de água, item essencial para o mínimo de estrutura.

Os repórteres Natália Cancian e Pedro Ladeira encontraram Antonete de Castro Monteiro, 50, na periferia de Ananindeua, no Pará. A casa dela não tem pia, torneira, água potável, e o mais assustador: falta banheiro

Há milhões de Antonetes por aí, personagens de um descaso governamental de décadas. As perspectivas são desanimadoras. Se nada mudar no curto prazo (e sabemos que, provavelmente, nada vai mudar), o país atrasará em pelo menos 30 anos a meta de 100% de acesso a saneamento universal (água e esgoto tratados) prevista para o ano de 2033.

Como um país quer crescer e desenvolver em tantas frentes se não oferece condições mínimas de dignidade para a sua população? Não garante nem o “básico” do que é classificado como saneamento básico.

Um caminho é estimular os investimentos da iniciativa privada na área. Apoiada pelo governo Bolsonaro, a ideia patina no Congresso pelas razões de sempre: os lobbies de setores públicos (governadores e companhias estaduais) e particulares.

O Brasil de Ananindeua, da casa sem banheiro de Antonete, deveria ter pressa para sair desse abismo.

Leandro Colon
Diretor da Sucursal de Brasília, foi correspondente em Londres. Vencedor de dois prêmios Esso.

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