BRASIL SAI SEM NADA DA CONFERENCIA DO CLIMA – REINALDO AZEVEDO – BLOG NO UOL

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Reinaldo Azevedo

Delinquência intelectual produzida pelo ministro Ricardo Salles para comemorar o vexame global estrelado pelo Brasil

Não parecesse desrespeito com a profissão, Ricardo Salles poderia ter saído da COP 25, a Conferência do Clima de Madri, com um nariz de palhaço. A referência ao picadeiro deve-se ao fato de que o ministro lá esteve mais para estrelar momices do que para ser levado a sério. Tentou tomar uma grana dos ricos e dar lição de moral. Saiu desmoralizado. Não levou nada. E contribuiu para colar no país, que era considerado um exemplo de combate ao desequilíbrio climático, a pecha de destruidor contumaz do meio ambiente. Será certamente enaltecido por seu chefe.

 “COP 25 não deu em nada. Países ricos não querem abrir seus mercados de créditos de carbono. Exigem medidas e apontam o dedo para o resto do mundo, sem cerimônia, mas na hora de colocar a mão no bolso, eles não querem. Protecionismo e hipocrisia andaram de mãos dadas, o tempo todo

Assim se manifestou Salles no Twitter, quase comemorando o desastre que foi a reunião do Clima em Madri. O papel do Brasil foi notado no mundo: estava lá, na prática, para impedir o avanço de qualquer acordo. E, nesse sentido, pode-se dizer bem-sucedido.

Com uma forma muito particular de humor, resolveu ironizar a reunião do clima: publicou uma foto no Twitter, seis horas mais tarde, de um pedação de carne, fatiada, com a seguinte mensagem: “Para compensar nossas emissões na COP, um almoço veggie (vegetariano)!”

Só um irresponsável associaria a carne ao insucesso da COP 25 quando o Brasil é hoje o maior produtor e exportador de gado bovino do mundo e sai da conferência apontado como um dos responsáveis pelo impasse. Trata-se de uma estupidez ginasiana.

Mas o homem está absolutamente adequado ao espírito do seu chefe. Na manhã deste domingo, Bolsonaro afirmou em coletiva em frente ao Palácio da Alvorada: “Não sei por que as pessoas não entendem que é apenas um jogo comercial. Eu realmente gostaria de saber: houve uma resolução para reflorestar a Europa ou eles estão apenas incomodando o Brasil?”

Já que falamos no bifão do ministro Salles, a consideração de Bolsonaro traz aquela ignorância crepitante do tio do churrasco. Ninguém falou, por óbvio, em reflorestar a Europa porque não era esse o tema da conferência. O principal objetivo da COP 25 era regulamentar o mercado de créditos de carbono, previsto no Parágrafo 6º do Acordo de Paris. E isso não aconteceu.

E, ora vejam, o Brasil colaborou de modo claro e explícito para o impasse, como notaram o Financial Times, o Wall Street Journal, agência Reuters, a imprensa alemã, a francesa… O país sai da COP 25 com a reputação na lata do lixo. Já havia recebido duas vezes o prêmio — ou antiprêmio — “Fóssil do Dia”, conferido pela Rede Internacional de Ação Climática.

A primeira distinção negativa se deveu à culpabilização de ONGs ambientalistas pelas queimadas na Amazônia. O segundo, por, de acordo com a Rede, “legitimar a grilagem de terra e a anistia a desmatadores”. E o Prêmio Colossal se deveu, adicionalmente, ao esforço para que o documento final da COP evitasse a expressão “emergência climática” e para que se retirasse a menção os “direitos humanos” no debate sobre créditos de carbono.

Salles estava tão determinado a fazer do Brasil o protagonista negativo da conferência que decidiu vetar referências em dois parágrafos do documento final — presentes nos parágrafos 31 e 32 — que faziam menção à importância do manejo adequado dos oceanos e das terras para o equilíbrio climático.

O país ficou absolutamente sozinho nessa reivindicação. O ministro, que chefiava a delegação brasileira, atingia, assim, o estrelato global. A presidente da COP 25, a chilena Carolina Schmidt, fez dois apelos para que retirasse o veto, diante dos protestos de uma avalanche de países. E Salles, então, concordou.

Por que diabos o governo brasileiro é contra à constatação óbvia de que o manejo dos solos e dos oceanos — que respondem pelo oxigênio do planeta — interfere no equilíbrio climático? Não há uma explicação racional, além da suspeita de que a extrema-direita paranoica pode achar que isso concorreria, sei lá, para internacionalizar a Amazônia…

Salles foi para a COP 25 exigir dinheiro. Em reuniões bilaterais, cobrou dos países ricos compensações para que o Brasil, então, adotasse medidas de proteção ao meio ambiente. É a isso que chama em seu tuíte “não colocar a mão no bolso”. Mas atenção! O governo federal chegou lá sem nenhum projeto.

Mais: o ministro se comportou como um mascate do mercado de carbono. Queria que os créditos vendidos a outras nações por empresas e eventualmente pelo próprio país não fossem descontados da prestação de contas do Brasil na redução de emissões, o que permitiria uma dupla contagem.

O Brasil sai da conferência com a fama de vilão. O desastre só não é total porque os nove estados da Amazônia celebraram um acordo de cooperação com a França e receberão recursos que não passam pelo controle do governo federal.

VEXAMES
Em matéria de vexame, o ministro não economizou. Chegou a anunciar no dia 4 de dezembro que a Alemanha havia decidido voltar a financiar o Fundo Amazônia, o que foi desmentido dois dias depois pelo governo daquele país.

Ah, sim: a Colômbia reduziu em 10% o ritmo do desmatamento na parte que lhe cabe da Amazônia entre 2017 e 2018. Deve repetir o feito em 2019. Celebrou um acordo de US$ 360 milhões até 2025 com Alemanha, Noruega e Reino Unido

A Noruega fechou um acordo de US$ 1 bilhão com a Indonésia.

O Brasil foi à COP 25 proferir insultos, pedir dinheiro sem apresentar projeto e se comportar como mercador de créditos de carbono. Saiu sem nada e com fama de desmatador. E o ministro Salles celebrou o feito com um bifão cortado em tiras. Como poderia ter dito o Conselheiro Acácio, as consequências virão depois.

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