Brasileiros estão com dificuldade de passar 24 horas sem um problema – CLAUDIA TAJES, FOLHA

Brasileiros estão com dificuldade de passar 24 horas sem um problema
Amapá sem luz, Amazônia e Pantanal queimando, mas a vida de uns é um inferno porque não dá para comer um pastel

Com pandemia ou sem, nas eleições ou fora delas, brasileiros e brasileiras estão com cada vez mais dificuldade de passar 24 horas sem um evento adverso na sua vida.

No Amapá, nem se fala. Sem luz, sem água, sem wifi, sem cartões de débito e de crédito, sem conseguir sacar dinheiro, sem comida, sem remédio, sem pai nem mãe. Um terremoto como o do Haiti em solo nacional, os prédios de pé, mas a vida toda jogada no chão.

O ministro de Minas e Energia estimou em dez dias a volta à normalidade. Dez dias de terremoto. Imagine se fosse na casa dele. Já o presidente —e chefe do ministro— tratou de tirar o corpo fora, disse não ser responsabilidade da União. Sou só o líder do Estado, não tenho nada a ver com isso daí.

Um evento adverso do tipo inacreditável.

Com o Amapá ainda sangrando, vem o caso da vacina. O alerta da Anvisa mandou parar tudo, porque um evento adverso, graças a Deus, que é a pessoa mais importante de todas, comprovou que a vacina chinesa é um perigo para o nosso povo. Nosso líder, aquele acima de Deus, acima de tudo, acertou outra vez. Arrã.

O evento era triste, mas sem relação com a vacina. Mesmo assim, a Anvisa levou mais dois dias para liberar os testes da Coronavac. Não queremos a vacina, temos a cloroquina.

Um evento adverso do tipo vergonhoso.

O Amapá e a interrupção dos testes ainda doendo, vem o discurso no Planalto. O lançamento de um programa de turismo virou terapia em grupo.

Tudo indica que o convênio da Presidência não oferece cobertura psicológica para seus associados. A Amazônia queimando, o Pantanal ardendo, mas a vida de uns e outros é um inferno porque não dá para comer um pastel. Ou tomar uma cana —cuidado com o que você deseja.

Pandemia é coisa de maricas, bullying se resolve na porrada e voa, urubuzada. Mais ou menos isso. A ordem dos fatores não vai alterar o produto.

Evento adverso de um tipo perturbado é pouco.

O Amapá, a vacina e o discurso ainda entalados, vem o ministro Paulo Guedes com a novidade: o fim do auxílio emergencial vai segurar a inflação.

Pessoas em confinamento foram ao supermercado, melhoraram suas casas, e os preços subiram. Que mania vocês têm de almoçar e de morar. É hora de acabar com esses luxos.

Evento adverso do tipo grave é essa gente que está aí.

Claudia Tajes
Escritora e roteirista, tem 11 livros publicados. Autora de “Macha”.

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